O TRIBUNAL DE CRISTO
Após o arrebatamento da Igreja, o próximo grande evento escatológico relacionado exclusivamente aos salvos é o Tribunal de Cristo (Bēma). Trata-se de um dos ensinos mais importantes da escatologia bíblica, pois revela que cada crente comparecerá diante do Senhor para prestar contas de sua vida de serviço. Não será um julgamento para condenação, mas para avaliação e recompensa.
Infelizmente, esse tema tem sido frequentemente mal compreendido. Alguns imaginam o Tribunal de Cristo como um julgamento semelhante ao Grande Trono Branco, enquanto outros reduzem sua importância, esquecendo que ele ocupa lugar central na esperança da Igreja. As Escrituras, porém, apresentam esse evento como uma ocasião de manifestação da justiça, da fidelidade e da graça de Deus para com aqueles que foram salvos em Cristo.
O objetivo deste estudo é apresentar, de maneira bíblica, doutrinária e pastoral, o ensino das Escrituras acerca do Tribunal de Cristo, examinando sua natureza, seu propósito, seus participantes, o momento em que ocorrerá e os resultados desse julgamento.
A certeza de que todos os crentes comparecerão diante de Cristo para prestação de contas deve produzir responsabilidade espiritual, zelo pelo serviço cristão e perseverança na obra do Senhor. Como escreveu o apóstolo Paulo:
"Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão."
(1 Coríntios 15.58)
TEXTOS FUNDAMENTAIS
- 2 Coríntios 5.10
- Romanos 14.10-12
- 1 Coríntios 3.9-15
Essas passagens constituem a base principal da doutrina do Tribunal de Cristo. Elas demonstram que todos os salvos comparecerão diante do Senhor para que suas obras sejam examinadas e recompensadas segundo a fidelidade demonstrada durante a vida cristã.
As Escrituras também revelam que, após o arrebatamento da Igreja, dois grandes acontecimentos ocorrerão na esfera celestial: o Tribunal de Cristo e as Bodas do Cordeiro. Neste estudo concentraremos nossa atenção exclusivamente no Tribunal de Cristo.
Embora Paulo utilize as expressões "Tribunal de Cristo" (2 Co 5.10) e "Tribunal de Deus" (Rm 14.10), não existe qualquer contradição entre elas. O próprio Senhor Jesus declarou:
"Porque o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo o julgamento."
(João 5.22)
Assim, o Tribunal pertence ao Filho porque Ele recebeu do Pai toda autoridade para julgar. Cristo exerce plenamente a autoridade divina, sendo ao mesmo tempo o Redentor dos salvos e o Juiz de suas obras.
O SIGNIFICADO DO TRIBUNAL (BĒMA)
O Novo Testamento utiliza duas palavras gregas traduzidas por "tribunal". A distinção entre elas é fundamental para compreender corretamente esse evento escatológico.
1. Critērion
Essa palavra aparece em textos como Tiago 2.6 e 1 Coríntios 6.2-4. Refere-se ao tribunal como instituição jurídica ou ao critério utilizado para julgar determinada causa. O foco está na administração da justiça.
2. Bēma
Em Romanos 14.10 e 2 Coríntios 5.10, Paulo utiliza uma palavra diferente: bēma.
O bēma designava originalmente uma plataforma elevada. Nos jogos atléticos gregos era o lugar onde os vencedores eram chamados para receber suas coroas. Também podia servir como tribuna oficial para pronunciamentos públicos.
Esse detalhe linguístico possui enorme importância para a interpretação bíblica.
"O bēma nunca esteve associado à condenação criminal, mas à avaliação e à recompensa. Sua função era honrar, e não punir."
— John Dwight Pentecost, Things to Come
Da mesma forma, Charles Ryrie afirma:
"O Tribunal de Cristo não é um tribunal para determinar o destino eterno do crente, mas para avaliar sua fidelidade e serviço após a salvação."
— Charles C. Ryrie, Basic Theology
Portanto, desde a escolha do termo utilizado por Paulo, fica evidente que esse julgamento não trata da salvação nem da condenação eterna. O pecado do crente já foi plenamente julgado na cruz de Cristo. O objetivo do Tribunal é revelar a qualidade do serviço prestado ao Senhor e distribuir os galardões correspondentes.
Essa distinção é essencial para evitar qualquer confusão entre o Tribunal de Cristo e o Juízo do Grande Trono Branco descrito em Apocalipse 20. Enquanto este último envolve os ímpios e resulta em condenação eterna, o Tribunal de Cristo envolve exclusivamente os salvos e tem como finalidade a manifestação da fidelidade de cada servo diante de seu Senhor.
A OCASIÃO DO TRIBUNAL DE CRISTO
Um dos aspectos mais importantes dessa doutrina é determinar o momento em que o Tribunal de Cristo ocorrerá dentro da sequência dos acontecimentos escatológicos.
Segundo a compreensão pré-milenista dispensacionalista, esse julgamento acontecerá após o arrebatamento da Igreja e antes da Segunda Vinda visível de Cristo. Trata-se de um evento celestial que envolve exclusivamente os crentes da presente dispensação.
O arrebatamento marca o encerramento da peregrinação da Igreja na terra. Conforme 1 Tessalonicenses 4.13–18, os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro, e os crentes vivos serão transformados e arrebatados para encontrar o Senhor nos ares.
Depois desse encontro, a Igreja permanecerá para sempre com Cristo. É nesse intervalo entre o arrebatamento e a manifestação gloriosa do Senhor que ocorrerão o Tribunal de Cristo e, posteriormente, as Bodas do Cordeiro.
O próprio Senhor relacionou a recompensa dos justos com a ressurreição:
"...porque serás recompensado na ressurreição dos justos."
(Lucas 14.14)
Em Apocalipse 19.7–8, a Igreja aparece já preparada para as Bodas do Cordeiro, vestida de linho finíssimo, puro e resplandecente. O próprio texto explica que esse linho representa "os atos de justiça dos santos", indicando que suas obras já foram avaliadas e recompensadas antes da manifestação gloriosa de Cristo.
"O galardão da Igreja deve ocorrer no céu, entre o arrebatamento e a segunda vinda, pois a Igreja retorna com Cristo já recompensada."
— John F. Walvoord, The Rapture Question
Dessa forma, o Tribunal de Cristo ocupa um lugar específico no programa profético de Deus: ele ocorre na presença do Senhor, antes da inauguração do Reino Milenar.
O LUGAR DO TRIBUNAL DE CRISTO
As Escrituras indicam que esse julgamento ocorrerá na esfera celestial.
Após o arrebatamento, a Igreja será conduzida à presença do Senhor:
"...e assim estaremos para sempre com o Senhor."
(1 Tessalonicenses 4.17)
Em 2 Coríntios 5.1–8, Paulo descreve a esperança do crente de deixar a habitação terrena para estar na presença de Cristo. Logo em seguida, no versículo 10, afirma que todos compareceremos perante o Tribunal de Cristo.
Essa sequência mostra que o Tribunal pertence ao ambiente celestial, onde Cristo está glorificado e onde a Igreja permanecerá após o arrebatamento.
Não há qualquer indicação bíblica de que esse julgamento ocorrerá sobre a terra ou durante o Reino Milenar. Seu cenário é o céu, diante do Senhor ressurreto e glorificado.
O JUIZ DO TRIBUNAL DE CRISTO
O Juiz desse Tribunal é o próprio Senhor Jesus Cristo.
Embora Paulo utilize as expressões "Tribunal de Cristo" e "Tribunal de Deus", ambas descrevem o mesmo acontecimento. O Pai confiou ao Filho toda autoridade para julgar.
"Porque o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo o julgamento."
(João 5.22)
Essa autoridade faz parte da exaltação messiânica de Cristo. Aquele que morreu pelos pecadores, ressuscitou dentre os mortos e foi exaltado à direita do Pai exercerá plenamente sua função como Juiz.
Entretanto, no Tribunal de Cristo, Ele não julgará os pecados dos salvos, pois estes já foram expiados definitivamente na cruz.
O julgamento terá outro propósito: examinar a fidelidade do serviço cristão, revelar as motivações do coração e distribuir os galardões prometidos aos seus servos.
Como observa Lewis Sperry Chafer, Cristo comparece nesse Tribunal não como Salvador que oferece redenção, mas como Senhor glorificado que honra a fidelidade daqueles que lhe pertencem.
Essa verdade deve produzir profunda reverência no coração dos crentes. O Senhor conhece perfeitamente todas as obras, todas as intenções e todos os atos realizados em Seu nome. Nada ficará oculto diante daquele cujos olhos "são como chama de fogo" (Apocalipse 1.14).
Ao mesmo tempo, essa realidade traz grande consolo. O Juiz é também o Salvador que amou a Igreja e entregou a si mesmo por ela. Seu julgamento será absolutamente justo, perfeito e livre de qualquer erro. Cada recompensa será concedida segundo a perfeita sabedoria daquele que conhece todas as coisas.
Essa certeza leva o crente a servir ao Senhor com humildade, fidelidade e perseverança, sabendo que "o vosso trabalho não é vão no Senhor" (1 Coríntios 15.58).
OS PARTICIPANTES DO TRIBUNAL DE CRISTO
As Escrituras deixam claro que o Tribunal de Cristo envolve exclusivamente os crentes. Não se trata de um julgamento universal da humanidade, mas de um evento destinado à Igreja, composta por todos aqueles que foram salvos pela graça mediante a fé em Jesus Cristo.
O contexto de 2 Coríntios 5.1–10 confirma essa verdade. Em toda a passagem, Paulo utiliza repetidamente o pronome "nós", identificando os participantes como aqueles que:
- possuem uma habitação eterna preparada por Deus (2 Co 5.1);
- receberam o Espírito Santo como penhor da redenção (2 Co 5.5);
- andam por fé, e não pelo que veem (2 Co 5.7);
- desejam estar presentes com o Senhor (2 Co 5.8);
- vivem para agradar a Cristo (2 Co 5.9).
Essas características pertencem somente aos salvos. Em nenhum momento Paulo inclui os incrédulos nesse julgamento.
Da mesma forma, em Romanos 14.10–12, o apóstolo dirige-se aos irmãos da igreja de Roma, lembrando que todos comparecerão diante do Tribunal de Deus para prestar contas de sua vida cristã.
"Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus."
(Romanos 14.12)
Lewis Sperry Chafer resume essa verdade afirmando:
"Nenhum texto bíblico associa o bēma aos ímpios. Trata-se de um tribunal familiar, destinado aos filhos de Deus, e não de um julgamento penal."
— Lewis Sperry Chafer, Systematic Theology
Portanto, o Tribunal de Cristo não deve ser confundido com o julgamento dos incrédulos descrito em Apocalipse 20. Enquanto o Grande Trono Branco trata da condenação dos que rejeitaram o Evangelho, o Tribunal de Cristo trata da avaliação daqueles que já pertencem ao Senhor.
A BASE DA AVALIAÇÃO
É fundamental compreender que a salvação do crente não será colocada em julgamento.
As Escrituras ensinam que todos aqueles que creem em Cristo já passaram da morte para a vida e não entram em condenação.
"Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida."
(João 5.24)
Da mesma forma, Paulo declara:
"Agora, pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus."
(Romanos 8.1)
Os pecados do crente foram definitivamente tratados na cruz do Calvário. Deus prometeu:
"Dos seus pecados e das suas iniquidades jamais me lembrarei."
(Hebreus 10.17)
Se os pecados não serão julgados, o que será avaliado?
O Novo Testamento responde que Cristo examinará:
- as obras realizadas;
- a qualidade do serviço prestado;
- as motivações do coração;
- a fidelidade com que cada crente serviu ao Senhor.
Em 2 Coríntios 5.10, Paulo afirma que cada um receberá segundo o que tiver feito por meio do corpo, seja bem ou mal.
O termo "mal" empregado nesse texto não significa pecado condenado, mas aquilo que é inútil, sem valor ou sem proveito diante de Deus. O foco está na utilidade espiritual das obras realizadas durante a vida cristã.
AS RECOMPENSAS DO TRIBUNAL DE CRISTO
As Escrituras ensinam que a fidelidade do crente será recompensada. Essas recompensas, chamadas de galardões, não constituem um pagamento pela salvação, pois esta é um dom gratuito da graça de Deus (Efésios 2.8-9). Elas representam o reconhecimento divino pelo serviço realizado em dependência do Espírito Santo e para a glória de Cristo.
O Novo Testamento menciona cinco coroas que simbolizam essas recompensas:
1. A Coroa Incorruptível
É prometida aos que exercem domínio próprio, disciplina espiritual e perseverança na carreira cristã.
"Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível."
(1 Coríntios 9.25)
2. A Coroa de Alegria
Relaciona-se ao fruto do testemunho cristão e ao trabalho na evangelização. Paulo chama os convertidos de sua "coroa de glória".
"Pois quem é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa em que exultamos, na presença de nosso Senhor Jesus em sua vinda? Não sois vós?"
(1 Tessalonicenses 2.19)
3. A Coroa da Justiça
Destina-se aos que vivem aguardando, com amor e expectativa, a manifestação gloriosa de Cristo.
"Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda."
(2 Timóteo 4.8)
4. A Coroa da Vida
Prometida aos que permanecem fiéis em meio às provações e perseguições.
"Bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida."
(Tiago 1.12)
5. A Coroa da Glória
Concedida aos pastores e líderes espirituais que exerceram seu ministério com fidelidade, humildade e dedicação ao rebanho de Deus.
"E, quando se manifestar o Supremo Pastor, recebereis a imarcescível coroa da glória."
(1 Pedro 5.4)
Essas coroas representam diferentes aspectos da fidelidade cristã. Elas demonstram que Deus observa cada área do serviço prestado ao Seu Reino e recompensará, em perfeita justiça, aqueles que permaneceram fiéis.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
A doutrina do Tribunal de Cristo não foi revelada para despertar medo, mas para produzir uma vida de santidade, fidelidade e dedicação ao Senhor.
Essa verdade nos lembra que:
- Nosso serviço para Cristo nunca é inútil.
- As motivações do coração são tão importantes quanto as obras realizadas.
- Deus conhece aquilo que permanece oculto aos homens.
- A fidelidade será plenamente recompensada.
- Todo crente deve viver esperando o encontro com Cristo.
Por isso Paulo escreveu:
"Assim, quer presentes, quer ausentes, esforçamo-nos para lhe ser agradáveis."
(2 Coríntios 5.9)
O Tribunal de Cristo deve inspirar uma vida marcada pela obediência, pela perseverança e pelo amor ao Senhor. Cada decisão tomada nesta vida possui significado eterno.
CONCLUSÃO
O Tribunal de Cristo constitui um dos grandes acontecimentos futuros reservados à Igreja. Nele, cada salvo comparecerá diante do Senhor não para responder pelos seus pecados — definitivamente perdoados na cruz —, mas para ver suas obras examinadas e recompensadas.
Esse julgamento manifesta a perfeita justiça de Deus e, ao mesmo tempo, Sua maravilhosa graça. Aquele que salva gratuitamente também recompensa graciosamente aqueles que lhe servem com fidelidade.
A cena apresentada em Apocalipse 4.10-11 resume o propósito final de todos os galardões. Os vinte e quatro anciãos lançam suas coroas diante do trono, reconhecendo que toda honra pertence exclusivamente ao Senhor.
"Os vinte e quatro anciãos prostrar-se-ão diante daquele que se encontra sentado no trono, adorarão o que vive pelos séculos dos séculos e depositarão as suas coroas diante do trono."
(Apocalipse 4.10)
Assim, o Tribunal de Cristo não termina na exaltação dos crentes, mas na glorificação de Deus. Todo galardão recebido será um testemunho eterno da graça divina operando na vida daqueles que foram salvos por meio de Cristo.
Enquanto aguardamos esse glorioso encontro com o Senhor, permanece válida a exortação apostólica:
"Sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão."
(1 Coríntios 15.58)
FONTES CONSULTADAS
- PENTECOST, J. Dwight. Things to Come.
- PENTECOST, J. Dwight. Manual de Escatologia.
- WALVOORD, John F. The Rapture Question.
- WALVOORD, John F. The Millennial Kingdom.
- CHAFER, Lewis Sperry. Systematic Theology.
- RYRIE, Charles C. Basic Theology.
- TOUSSAINT, Stanley D. Behold the King.