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COMENTÁRIOS SOBRE AS SETENTA SEMANAS DE DANIEL

Introdução

Nossa discussão continua em torno da data que deve ser utilizada como ponto de partida para a contagem das Setenta Semanas Proféticas de Daniel. Neste artigo, apresentaremos mais três comentaristas e suas respectivas interpretações, demonstrando que essa questão permanece aberta ao debate entre estudiosos da escatologia bíblica.

Vale lembrar ao leitor que esta discussão está inserida principalmente no contexto do dispensacionalismo, corrente interpretativa que compreende as Setenta Semanas como períodos literais de anos, totalizando 490 anos determinados por Deus para Israel e Jerusalém.

I – O Comentário de R. N. Champlin

Antes de analisar a posição de Champlin sobre a contagem das Semanas, é importante observar três interpretações que ele apresenta para Daniel 9.24–27.

1. A Interpretação Liberal

Segundo essa perspectiva, a passagem deve ser entendida como história e não como profecia preditiva. As Setenta Semanas começariam em 538 a.C., com o decreto de Ciro, e terminariam em 172 a.C., com o assassinato do sumo sacerdote Onias III, deposto em 175 a.C.

Nessa interpretação, o personagem de Daniel 9.26–27 seria Antíoco IV Epifânio, e os acontecimentos descritos estariam relacionados à sua perseguição contra Jerusalém. A profecia não seria messiânica, e os números não precisariam ser entendidos com precisão cronológica.

2. A Visão Tradicional

Essa interpretação considera Daniel 9 uma profecia messiânica legítima. A contagem teria início com o decreto de Artaxerxes para a restauração de Jerusalém, e as Setenta Semanas apontariam para a vinda do Messias.

Alguns intérpretes tradicionais iniciam a contagem no decreto de Ciro (538 a.C.), enquanto outros preferem o decreto de Artaxerxes. Em muitas versões dessa interpretação, a Septuagésima Semana é associada ao ministério de Jesus.

3. A Visão Dispensacionalista

De modo geral, o dispensacionalismo acompanha a interpretação tradicional, mas introduz um intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana. Essa última semana é projetada para o futuro e associada ao período da Grande Tribulação, após o arrebatamento da Igreja.

Após apresentar essas três linhas interpretativas, Champlin expõe a posição adotada pela maioria dos intérpretes dispensacionalistas.

Ele observa ainda que diversos intérpretes da tradição rabínica consideravam Daniel 9.24–27 uma profecia messiânica e utilizaram esse texto para calcular o tempo da manifestação do Messias.

Resumo da Contagem Apresentada por Champlin

  • Primeira divisão: 7 semanas (49 anos) — reconstrução e restauração de Jerusalém.
  • Segunda divisão: 62 semanas (434 anos) — período que conduz até a manifestação do Messias.
  • Total: 69 semanas (483 anos).

Champlin utiliza como ponto de partida o decreto de Artaxerxes em 445 a.C. (Neemias 2.1–8), chegando à manifestação do Messias por volta de 32 d.C. Em seguida ocorre a morte do Ungido, conforme Daniel 9.26, e posteriormente a destruição de Jerusalém em 70 d.C.

Assim como a maioria dos dispensacionalistas, Champlin entende que a Septuagésima Semana ainda pertence ao futuro e está relacionada à Grande Tribulação.


II – O Comentário de Severino Pedro da Silva

Em nossa análise da contagem das Setenta Semanas, é importante incluir a posição do saudoso pastor Severino Pedro da Silva, teólogo pentecostal e dispensacionalista.

Seu comentário é extraído da obra Daniel Versículo por Versículo, publicada pela CPAD.

Segundo Severino Pedro, as Setenta Semanas possuem três divisões principais, sendo que a última semana é subdividida em dois períodos de três anos e meio.

Ele argumenta que a ordem mencionada por Gabriel em Daniel 9.25 não pode ser o decreto de Ciro, pois esse decreto estava relacionado à reconstrução do Templo e não da cidade de Jerusalém.

Por essa razão, identifica o decreto de Artaxerxes (Neemias 2) como o verdadeiro ponto inicial da profecia.

Estrutura da Contagem

  • 7 semanas = 49 anos (445 a.C. a 396 a.C.).
  • 62 semanas = 434 anos.
  • Total de 69 semanas = 483 anos.

Segundo Severino Pedro, dentro desse período deveria ocorrer a manifestação do Messias. Após Sua morte, iniciaria-se o cenário descrito em Daniel 9.26, culminando na destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.

A Questão dos Cinco Anos

O autor procura explicar a diferença entre a contagem profética e o calendário moderno.

Ele argumenta que, ao somarmos 445 a.C. aos 33 anos da vida terrena de Cristo, chegamos a 478 anos. Entretanto, considera fatores relacionados à ausência do ano zero e aos ajustes cronológicos ligados ao calendário de Dionísio Exíguo.

Segundo sua interpretação, esses fatores completariam os 483 anos previstos nas 69 semanas.

Além disso, Severino Pedro utiliza observações astronômicas e cronológicas para sustentar sua argumentação, seguindo uma linha semelhante à desenvolvida por Sir Robert Anderson.

Ao final, ele conclui que a Septuagésima Semana permanece futura e será cumprida durante a Grande Tribulação, após o arrebatamento da Igreja.


III – O Comentário de Saullo Stan

Também é relevante mencionar a posição do professor Saullo Stan, ministro itinerante, professor de Escatologia do Rhema Brasil e diretor do seminário Surpreendidos pela Eternidade.

Assim como os demais autores apresentados, Saullo adota uma interpretação dispensacionalista das Setenta Semanas.

Inicialmente, ele destaca que as Setenta Semanas correspondem a setenta períodos de sete anos:

70 semanas × 7 anos = 490 anos.

Segundo ele, esses 490 anos foram determinados especificamente sobre o povo de Daniel (Israel) e sobre a cidade de Jerusalém.

Os Propósitos das Setenta Semanas

Saullo divide os seis propósitos de Daniel 9.24 em dois grupos:

Relacionados à primeira vinda de Cristo:

  • Cessar a transgressão;
  • Dar fim aos pecados;
  • Expiar a iniquidade.

Relacionados à segunda vinda de Cristo:

  • Trazer a justiça eterna;
  • Selar a visão e a profecia;
  • Ungir o Santíssimo.

O Início da Contagem

Saullo propõe o decreto de Artaxerxes registrado em Neemias 2.1–8 como o início da contagem, situando-o aproximadamente em 444 a.C.

Ele destaca quatro decretos importantes:

  • Decreto de Ciro — reconstrução do Templo;
  • Decreto de Dario — confirmação do decreto de Ciro;
  • Primeiro decreto de Artaxerxes — relacionado ao culto;
  • Segundo decreto de Artaxerxes — reconstrução da cidade.

A partir desse último decreto, Saullo calcula:

  • 7 semanas = 49 anos;
  • 62 semanas = 434 anos;
  • Total = 69 semanas ou 483 anos.

Ele entende que a última semana corresponde ao futuro período tribulacional de sete anos.

Embora utilize a data de 444 a.C., Saullo argumenta que os ajustes cronológicos normalmente considerados pelos estudiosos permitem harmonizar a contagem com os eventos da vida e do ministério de Jesus.


Considerações Finais

Como o leitor pode perceber, a discussão sobre a contagem das Setenta Semanas permanece aberta mesmo entre autores que compartilham a mesma linha teológica.

Embora exista forte consenso entre os comentaristas dispensacionalistas quanto à interpretação geral da profecia, há diferenças significativas quanto à data exata do decreto inicial e aos cálculos cronológicos utilizados.

Os pontos de maior concordância são:

  • As Setenta Semanas representam 490 anos;
  • As primeiras 69 semanas conduzem à manifestação do Messias;
  • A destruição de Jerusalém em 70 d.C. ocorre após a morte do Ungido;
  • A Septuagésima Semana está relacionada ao período da Grande Tribulação.

No próximo artigo continuaremos analisando outras propostas interpretativas, incluindo autores que apresentam diferentes perspectivas sobre o cumprimento das Setenta Semanas de Daniel.

Nota: Este estudo faz parte de uma série dedicada à análise das Setenta Semanas de Daniel. Nos próximos artigos continuaremos examinando diferentes interpretações, cronologias e propostas escatológicas relacionadas à profecia de Daniel 9.24–27.


Fontes

  • Enciclopédia de Teologia, Bíblia e Filosofia — R. N. Champlin.
  • Daniel, Versículo por Versículo — Severino Pedro da Silva (CPAD).
  • Material didático e estudos de Saullo Stan.
  • Pr Saullo Stan — Rhema Brasil
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