As 70 Semanas de Daniel: As Considerações Finais de Derek Walker Sobre a Contagem Profética e a Grande Tribulação
Nos artigos anteriores, analisamos a proposta de Derek Walker para o início da contagem das 70 Semanas de Daniel. Segundo o autor, o ponto de partida correto da profecia seria o decreto de Artaxerxes em 458 a.C., diferentemente da posição mais comum entre os dispensacionalistas, que geralmente adotam as datas de 445 ou 444 a.C.
Walker mantém os fundamentos do dispensacionalismo, do pré-tribulacionismo e do pré-milenismo. Entretanto, sua principal diferença está na interpretação da cronologia das Setenta Semanas. Para ele, os 490 anos da profecia cumpriram-se integralmente em 33 d.C., culminando na morte de Cristo. Ainda assim, o autor não rejeita a existência de um futuro período de Tribulação.
Neste artigo concluiremos a apresentação de seus argumentos antes de iniciarmos nossa abordagem específica sobre a Grande Tribulação.
I — A Profecia e o Intervalo no Programa Divino
Derek Walker afirma:
"Louvemos a Deus que muda os tempos e as estações" (Dn 2.20-22).
Segundo o autor, Deus realizou algo especial com os últimos sete anos do cronograma profético de Israel. Em sua interpretação, após a rejeição do Messias pela nação judaica, o programa do Reino foi interrompido temporariamente.
Walker argumenta:
"Por terem rejeitado seu Rei e Reino, Deus oficialmente os desligou, parou Seu relógio e cancelou Seus últimos sete anos (26–33 d.C., o tempo da apresentação do Messias). Ele lhes dará uma segunda oportunidade, permitindo que esses sete anos sejam retomados no fim desta era."
Nessa perspectiva, os sete anos do ministério messiânico entre João Batista e Jesus correspondem à Septuagésima Semana de Daniel. Contudo, devido à rejeição nacional do Messias, os acontecimentos associados ao estabelecimento do Reino foram adiados.
É importante observar que Derek Walker procura harmonizar sua posição com o dispensacionalismo clássico. Ele não elimina os sete anos futuros da Tribulação, mas entende que eles constituem uma espécie de repetição ou reapresentação dos eventos ligados à última semana profética.
O autor também observa que:
- Nos primeiros sete anos, Cristo apresentou-se como Rei.
- Nos últimos sete anos, o Anticristo se apresentará como falso rei.
- Ambos os períodos possuem estrutura semelhante, dividida em duas metades.
Walker conclui:
"Antes que os sete anos finais no relógio de Israel possam correr novamente, cerca de dois mil anos da Era da Igreja foram inseridos no programa profético. Assim surgiu um intervalo entre os dois conjuntos de sete anos."
II — A Posição Teológica de Derek Walker
Para sustentar sua interpretação, Walker recorre frequentemente à tipologia bíblica.
Um dos exemplos utilizados é a história de José no Egito. O autor relaciona os sete anos de fartura e os sete anos de fome descritos em Gênesis 41 aos dois períodos de sete anos presentes em sua interpretação profética.
Segundo essa analogia:
- Os primeiros sete anos representam o período em que Cristo ofereceu o Reino a Israel.
- Os sete anos futuros representam o período da Tribulação.
Walker também utiliza a rejeição de José por seus irmãos como figura da rejeição de Cristo por Israel.
Assim como José foi rejeitado inicialmente e depois reconhecido por seus irmãos, Jesus foi rejeitado em Sua primeira vinda e será reconhecido por Israel em Sua segunda vinda.
O autor estabelece ainda uma conexão com Jeremias 30.7, entendendo que a aflição futura de Israel conduzirá a nação ao arrependimento e ao reconhecimento do Messias.
Dessa forma, Walker sustenta que a Septuagésima Semana possui um cumprimento histórico ligado ao ministério de Cristo e um cumprimento futuro relacionado à Tribulação.
III — O Futuro Príncipe e a Tribulação
Retornando ao texto de Daniel 9.26-27, Walker comenta:
"O povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário."
Segundo sua interpretação, o primeiro cumprimento ocorreu com a destruição de Jerusalém pelos romanos entre os anos 66 e 73 d.C.
Entretanto, ele entende que a profecia também aponta para um governante futuro:
"O príncipe que há de vir."
Esse personagem seria o Anticristo, associado a um futuro sistema derivado do antigo Império Romano.
Walker estabelece um contraste entre dois príncipes:
O Príncipe Messias
- Jesus Cristo.
- Rei legítimo de Israel.
- Rejeitado pela nação em Sua primeira vinda.
O Príncipe que Há de Vir
- O Anticristo.
- Governante futuro.
- Falso messias que surgirá durante a Tribulação.
Segundo Walker:
"Por Israel ter rejeitado o verdadeiro Messias após sete anos de graça, a nação terá de enfrentar o falso messias durante os sete anos da Tribulação."
Assim, para ele, a Tribulação está diretamente ligada à rejeição nacional de Cristo e à necessidade de preparação espiritual de Israel para o Reino Messiânico.
IV — As Possíveis Datas para o Início das 70 Semanas
Ao concluir sua análise, Derek Walker apresenta as principais datas sugeridas para o início da contagem das Setenta Semanas.
A) Decreto de Ciro — 536 a.C.
(Esdras 1.2-4)
Walker entende que esse decreto tinha como foco principal a reconstrução do templo e não da cidade de Jerusalém.
B) Decreto de Dario — 518 a.C.
(Esdras 6.1-3)
Considerado apenas uma confirmação do decreto de Ciro.
C) Decreto de Artaxerxes — 458 a.C.
(Esdras 7.11-26)
Esta é a data defendida por Derek Walker.
Segundo ele:
- O decreto possui forte caráter oficial.
- Recebe destaque especial nas Escrituras.
- Inclui aspectos administrativos e governamentais.
- Permite a restauração da estrutura nacional judaica.
D) Decreto de Artaxerxes — 445 a.C.
(Neemias 2)
Walker entende que esse não foi o decreto original, mas uma autorização posterior concedida a Neemias para dar continuidade ao trabalho iniciado anteriormente.
Por essa razão, ele considera 458 a.C. a data mais adequada para iniciar a contagem das Setenta Semanas.
V — O Propósito das 70 Semanas
Independentemente da data adotada, a questão central da profecia permanece a mesma.
Daniel 9.24 afirma que:
"Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade."
Portanto, a profecia possui como foco principal:
- O povo de Israel.
- A cidade de Jerusalém.
- O estabelecimento do Reino de Deus.
A estrutura da profecia pode ser resumida da seguinte forma:
1. Sete Semanas (49 anos)
Período da restauração de Jerusalém.
2. Sessenta e Duas Semanas (434 anos)
Período que conduz até a manifestação do Messias.
3. Uma Semana (7 anos)
Período final relacionado à consumação do programa profético para Israel.
Nesse último ponto surge a principal divergência:
- A maioria dos dispensacionalistas entende que existe um intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana.
- Derek Walker entende que a Septuagésima Semana teve um cumprimento inicial nos dias de João Batista e Jesus, sendo posteriormente repetida na Tribulação futura.
Conclusão
A análise de Derek Walker demonstra que nem mesmo entre os estudiosos dispensacionalistas existe unanimidade quanto ao início da contagem das 70 Semanas de Daniel.
Embora a maioria dos intérpretes adote as datas de 444 ou 445 a.C., Walker propõe 458 a.C. como ponto de partida e defende que os 490 anos da profecia alcançaram seu cumprimento em 33 d.C., com a morte de Cristo.
Ao mesmo tempo, ele preserva elementos fundamentais do dispensacionalismo, incluindo:
- O futuro de Israel no plano de Deus.
- O arrebatamento da Igreja.
- A Grande Tribulação.
- O reinado milenar de Cristo.
Sua proposta representa uma interpretação alternativa dentro do próprio campo dispensacionalista e contribui para demonstrar a complexidade do debate envolvendo Daniel 9.24-27.
Nos próximos artigos iniciaremos uma análise mais detalhada da Septuagésima Semana de Daniel e de sua relação com a Grande Tribulação, tema central da escatologia bíblica.
Fontes
Profecias do Fim dos Tempos – Volume 1
Autor: Derek Walker
Editora: Rhema Brasil Publicações