A QUESTÃO DO INTERVALO - JOHN DWIGHT PENTECOST

O INTERVALO ENTRE A PENÚLTIMA E A ÚLTIMA SEMANA DE DANIEL

INTRODUÇÃO

Uma das principais diferenças entre o dispensacionalismo e outras escolas de interpretação escatológica está na compreensão do intervalo existente entre a sexagésima nona e a septuagésima semana da profecia de Daniel.

A profecia das setenta semanas (Daniel 9.24-27) apresenta uma sequência cronológica determinada por Deus para cumprir Seus propósitos relacionados ao povo de Israel e à cidade de Jerusalém. De acordo com a interpretação dispensacionalista clássica, as primeiras sessenta e nove semanas tiveram cumprimento histórico até a manifestação do Messias, porém a última semana permanece separada das anteriores por um período de duração indeterminada.

Esse intervalo, conhecido como um "parêntese profético", corresponde ao período atual da Igreja e possui papel fundamental para compreender acontecimentos relacionados à Grande Tribulação, ao futuro de Israel e ao estabelecimento do Reino Messiânico.

Embora outras escolas escatológicas entendam que as setenta semanas de Daniel tiveram cumprimento contínuo, interpretando a última semana como já realizada no passado, o dispensacionalismo entende que essa visão não considera adequadamente o caráter literal da profecia e os objetivos ainda não cumpridos apresentados em Daniel 9.24.

Neste estudo, analisaremos os argumentos apresentados por John Dwight Pentecost, especialmente em sua obra Manual de Escatologia, buscando compreender por que a interpretação dispensacionalista defende a existência de um intervalo entre a penúltima e a última semana de Daniel.

O entendimento desse ponto é essencial para prosseguirmos na sequência dos estudos relacionados à Grande Tribulação, pois a identificação da septuagésima semana determina diretamente a compreensão do período futuro de juízo, do surgimento do anticristo e dos acontecimentos que antecedem a Segunda Vinda de Cristo.


I – HÁ UM INTERVALO ENTRE AS SEMANAS?

Um dos pontos que aproxima a interpretação pós-tribulacionista e a amilenista é a compreensão de que a septuagésima semana de Daniel já foi cumprida após a morte de Cristo.

Segundo essa perspectiva, as setenta semanas teriam seguido uma sequência contínua, sem qualquer interrupção entre a sexagésima nona e a septuagésima semana. Dessa forma, alguns intérpretes entendem que a última semana ocorreu no período imediatamente posterior à crucificação de Jesus, enquanto outros chegam a afirmar que a própria era atual corresponde ao cumprimento dessa semana final.

John Dwight Pentecost apresenta uma crítica a essa interpretação, argumentando que ela depende de uma abordagem espiritualizada da profecia.

"O erro desta visão reside no fato de que somente pela espiritualização da profecia os resultados da obra do Messias, conforme esboçado em Daniel 9.24, podem considerar-se cumpridos."

A observação de Pentecost está relacionada ao fato de que Daniel 9.24 apresenta seis objetivos determinados por Deus para as setenta semanas:

  • cessar a transgressão;
  • dar fim aos pecados;
  • expiar a iniquidade;
  • trazer justiça eterna;
  • selar a visão e a profecia;
  • ungir o Santo dos Santos.

Segundo a interpretação dispensacionalista, esses objetivos possuem relação direta com o futuro de Israel e ainda não foram plenamente cumpridos na história.

A morte de Cristo realizou a obra redentora necessária para a expiação dos pecados, mas as promessas relacionadas ao estabelecimento da justiça eterna, ao cumprimento final das profecias e à restauração do Reino Messiânico ainda aguardam realização.

Portanto, se a septuagésima semana já tivesse sido cumprida integralmente, seria necessário admitir que todas essas promessas foram realizadas em relação a Israel, algo que não corresponde ao desenvolvimento histórico da nação.

Pentecost argumenta que a interpretação correta das setenta semanas deve respeitar a própria estrutura cronológica apresentada em Daniel 9.25-27.

A profecia apresenta:

  • sete semanas;
  • sessenta e duas semanas;
  • uma última semana.

As primeiras sessenta e nove semanas conduzem até o Messias. Depois disso, Daniel apresenta acontecimentos que ocorrem antes da última semana, demonstrando a existência de um intervalo entre elas.

Assim, dentro da interpretação dispensacionalista, a septuagésima semana não pertence ao passado, mas aguarda seu cumprimento futuro.

II – CONSIDERAÇÕES SOBRE O INTERVALO

A compreensão do intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana de Daniel não está baseada apenas em uma questão cronológica, mas em um princípio observado em diversas profecias bíblicas.

John Dwight Pentecost, seguindo a argumentação de H. A. Ironside, demonstra que as Escrituras apresentam vários exemplos nos quais acontecimentos proféticos estão separados por períodos de tempo que não aparecem claramente no texto inicial.

Esses intervalos proféticos revelam que Deus, em Sua revelação, frequentemente apresenta acontecimentos futuros em uma mesma profecia, sem necessariamente indicar o período existente entre eles.

Ironside apresenta alguns exemplos que ajudam a compreender esse princípio:

1. O intervalo entre o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança de Deus

Um dos exemplos mais claros encontra-se em Isaías 61.1-2.

Ao anunciar o ministério do Messias, o profeta declara:

"A apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus..."

Quando Jesus leu essa passagem na sinagoga de Nazaré, conforme Lucas 4.16-21, Ele encerrou a leitura justamente antes da expressão "o dia da vingança do nosso Deus".

Isso demonstra que havia uma separação profética entre a primeira vinda do Messias, marcada pela graça e salvação, e Sua segunda manifestação, relacionada ao juízo.

O profeta Isaías apresenta ambos os eventos na mesma passagem, mas existe um intervalo entre eles superior a dois mil anos.

2. O intervalo dentro do Império Romano

Outro exemplo encontra-se nas profecias de Daniel sobre os impérios mundiais.

Em Daniel 2, a grande estátua apresenta o Império Romano representado pelas pernas de ferro e, posteriormente, pelos pés de ferro misturado com barro.

A interpretação dispensacionalista entende que existe uma separação entre o antigo Império Romano e sua futura manifestação representada pelos dez dedos dos pés.

Da mesma forma, Daniel 7.23-27 e Daniel 8.24-25 apresentam acontecimentos relacionados ao domínio futuro que não ocorreram na primeira fase histórica de Roma.

3. O intervalo em Daniel 11

Pentecost também observa um princípio semelhante em Daniel 11.35-36.

O texto apresenta uma transição entre acontecimentos históricos relacionados aos reis anteriores e a manifestação futura de um governante que muitos identificam como uma referência ao anticristo.

Assim, a profecia demonstra novamente que acontecimentos podem estar separados por um período indeterminado.

4. O intervalo nas profecias de Oséias

Outro exemplo aparece em Oséias.

"Porque os filhos de Israel ficarão muitos dias sem rei, sem príncipe, sem sacrifício..." (Oséias 3.4)

Mas posteriormente afirma:

"Depois tornarão os filhos de Israel, e buscarão ao Senhor seu Deus e a Davi, seu rei..." (Oséias 3.5)

Entre esses dois acontecimentos existe um longo período de dispersão e restauração futura de Israel.

5. O intervalo nos Salmos messiânicos

O mesmo princípio aparece nos Salmos 22 e 110.

No Salmo 22 encontramos a descrição dos sofrimentos do Messias, especialmente relacionados à cruz.

Entretanto, o Salmo prossegue posteriormente descrevendo a exaltação e o domínio futuro do Rei.

Da mesma forma, o Salmo 110 apresenta:

"Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita..."

Jesus aplicou esse texto à Sua exaltação após a ressurreição, mas o salmo também aponta para Seu domínio futuro sobre os inimigos.

Entre o sofrimento e a glória existe um intervalo.

6. O exemplo utilizado por Pedro

Pentecost também observa que Pedro, ao citar o Salmo 34.12-16 em 1 Pedro 3.10-12, demonstra esse mesmo princípio.

O apóstolo aplica parte da passagem ao presente relacionamento de Deus com os Seus filhos, enquanto o cumprimento pleno do juízo ainda aguarda o futuro.

7. Mateus 24 e a profecia de Daniel

Um dos exemplos mais importantes encontra-se no Sermão Profético.

Jesus menciona a "abominação da desolação" anunciada pelo profeta Daniel:

"Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel..." (Mateus 24.15)

Esse evento está relacionado à Grande Tribulação:

"Porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido..." (Mateus 24.21)

Para Pentecost, essa passagem só pode ser compreendida corretamente quando se reconhece que existe um intervalo entre Daniel 9.26 e Daniel 9.27.

A era presente da Igreja está inserida entre esses dois versículos.

8. Atos 15 e o mistério da Igreja

Outro argumento importante encontra-se em Atos 15.13-21.

Na reunião de Jerusalém, Tiago explica que Deus visitaria primeiro os gentios para formar um povo para o Seu nome.

"Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído de Davi..." (Atos 15.16)

Para Pentecost, essa passagem demonstra que o programa de Deus para Israel permanece futuro.

A Igreja não substituiu Israel, mas ocupa um período específico dentro do plano divino antes da restauração prometida ao povo judeu.

Esses exemplos apresentados por Pentecost demonstram que a existência de um intervalo profético não é algo estranho às Escrituras.

Dentro da interpretação dispensacionalista, o intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana de Daniel segue esse mesmo padrão revelacional.

Ele explica por que a profecia de Daniel pode apresentar acontecimentos separados por um longo período sem comprometer sua literalidade.

III – A NECESSIDADE DO INTERVALO

Além dos exemplos apresentados anteriormente, John Dwight Pentecost argumenta que o próprio texto de Daniel 9.24-27 exige a existência de um intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana.

Segundo Pentecost, Daniel 9.26 apresenta acontecimentos que ocorrem depois da sexagésima nona semana, mas antes da introdução da septuagésima semana.

O texto declara:

"Depois das sessenta e duas semanas será morto o Ungido e já não estará; e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário..." (Daniel 9.26)

A interpretação dispensacionalista observa que dois acontecimentos importantes aparecem nesse versículo:

  • A morte do Messias;
  • A destruição de Jerusalém e do templo.

Entretanto, esses acontecimentos não pertencem à septuagésima semana, pois ela somente é apresentada no versículo seguinte:

"Ele fará firme aliança com muitos por uma semana..." (Daniel 9.27)

Dessa forma, Pentecost entende que existe um período intermediário entre os acontecimentos descritos em Daniel 9.26 e o início da última semana mencionada no versículo 27.

O próprio Pentecost afirma:

"Dois grandes acontecimentos ocorrem após a sexagésima nona semana e antes da septuagésima semana: a morte do Messias e a destruição da cidade e do templo em Jerusalém. Esses dois acontecimentos não ocorreram na septuagésima semana, pois esta não nos é introduzida até o versículo 27, mas num intervalo entre a sexagésima nona semana e a septuagésima semana."

Esse argumento é considerado fundamental dentro da interpretação dispensacionalista.

Pentecost observa que a morte de Cristo aconteceu poucos dias após o término da sexagésima nona semana. Se um pequeno intervalo é permitido pelo próprio texto, então não existe dificuldade em admitir um intervalo maior entre esses acontecimentos.

A destruição de Jerusalém ocorreu aproximadamente quarenta anos depois da crucificação. Se o texto permite essa separação temporal, então também é possível compreender que esse intervalo se estenda até o período atual da Igreja.


O INTERVALO E O PROGRAMA DE DEUS PARA ISRAEL

Outro argumento apresentado por Pentecost está relacionado ao fato de que a profecia de Daniel possui Israel como seu principal alvo.

"Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade..." (Daniel 9.24)

O foco da profecia não é a Igreja, mas Israel e Jerusalém.

Portanto, se a septuagésima semana já tivesse sido cumprida, as seis bênçãos apresentadas no início da profecia deveriam ter sido plenamente realizadas na experiência da nação.

Entretanto, a história demonstra que Israel ainda aguarda o cumprimento completo dessas promessas.

As condições descritas por Daniel envolvem:

  • Cessar a transgressão;
  • Dar fim aos pecados;
  • Expiar a iniquidade;
  • Trazer justiça eterna;
  • Selar a visão e a profecia;
  • Ungir o Santo dos Santos.

Embora a morte de Cristo tenha realizado a base espiritual para essas promessas, o cumprimento completo relacionado ao Reino Messiânico ainda aguarda a restauração futura de Israel.

Segundo a perspectiva dispensacionalista, Deus não substituiu Israel pela Igreja, mas mantém um propósito distinto para ambos dentro do Seu plano.

Por essa razão, o intervalo torna-se necessário.

Ele representa o período em que Deus está formando a Igreja enquanto aguarda o cumprimento futuro das promessas feitas à nação de Israel.


O INTERVALO E A SEGUNDA VINDA DE CRISTO

Outro ponto importante apresentado por Pentecost está relacionado à Segunda Vinda.

As promessas de restauração de Israel estão diretamente associadas ao retorno glorioso de Cristo.

"E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Libertador..." (Romanos 11.26)

A restauração de Israel, portanto, está ligada ao retorno do Messias.

Pentecost argumenta que, se a septuagésima semana já tivesse sido cumprida logo após a morte de Cristo, a Segunda Vinda deveria ter ocorrido naquela geração, pois as promessas associadas ao fim das setenta semanas ainda permaneceriam sem cumprimento.

Entretanto, Cristo não retornou naquele período para estabelecer o Reino prometido.

Logo, existe necessariamente um intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana.

Esse intervalo corresponde à presente era, na qual Deus realiza Seu propósito relacionado à Igreja, antes de retomar Seu programa específico com Israel.

IV – A SEPTUAGÉSIMA SEMANA AINDA AGUARDA CUMPRIMENTO

Ao concluir sua argumentação, John Dwight Pentecost relaciona a profecia das setenta semanas de Daniel com o ensino de Jesus no Sermão Profético.

Em Mateus 24, Cristo faz referência direta ao profeta Daniel:

"Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo (quem lê entenda)..." (Mateus 24.15)

Para Pentecost, essa declaração de Jesus demonstra que a profecia de Daniel ainda possuía cumprimento futuro, pois o evento mencionado pelo Senhor está associado ao período da Grande Tribulação.

"Porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais." (Mateus 24.21)

A sequência apresentada por Cristo é significativa: primeiro ocorre a manifestação da abominação da desolação, depois vem o período da Grande Tribulação e, posteriormente, a manifestação gloriosa do Filho do Homem.

"Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento e os poderes dos céus serão abalados. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu com poder e muita glória." (Mateus 24.29-30)

Essa sequência, segundo Pentecost, coloca a septuagésima semana de Daniel no período final da história, imediatamente antes da Segunda Vinda de Cristo.

Ele também relaciona essa compreensão com Atos 1.6-8, quando os discípulos perguntaram ao Senhor:

"Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?" (Atos 1.6)

A resposta de Jesus não foi uma negação da restauração futura do Reino, mas uma indicação de que havia um período intermediário antes desse cumprimento.

Para Pentecost, esse período corresponde à presente era, na qual a Igreja cumpre seu papel dentro do plano de Deus, enquanto Israel aguarda a restauração prometida.

"A única conclusão deve ser que os acontecimentos da septuagésima semana ainda não foram cumpridos e aguardam cumprimento literal no futuro."


CONCLUSÃO

A interpretação dispensacionalista clássica entende que o intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana de Daniel não é uma tentativa de ajustar a profecia a uma determinada escola teológica, mas uma conclusão baseada na estrutura apresentada pelo próprio texto bíblico.

Esse intervalo explica diversos aspectos fundamentais da escatologia bíblica:

  • A rejeição temporária de Israel ao Messias;
  • A formação da Igreja durante a presente era;
  • A continuidade das promessas feitas por Deus à nação de Israel;
  • O cumprimento futuro das bênçãos profetizadas em Daniel 9.24;
  • A localização da Grande Tribulação no período imediatamente anterior à Segunda Vinda.

Dentro dessa perspectiva, a septuagésima semana permanece como um período profético futuro, no qual Deus completará Seu propósito para Israel e cumprirá integralmente aquilo que foi anunciado pelos profetas.

O intervalo entre a penúltima e a última semana representa, portanto, um período de espera dentro do plano soberano de Deus, no qual a Igreja está inserida, mas que terá seu encerramento quando Deus retomar Seu programa específico relacionado a Israel.

Entretanto, uma questão ainda precisa ser analisada.

Sabemos que muitos intérpretes que não seguem a linha dispensacionalista defendem que as setenta semanas de Daniel tiveram cumprimento completo no passado. Mas será que todos os dispensacionalistas concordam com a existência de um intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana?

Existem estudiosos dentro do próprio dispensacionalismo que apresentam uma interpretação diferente e defendem que a septuagésima semana já teve um cumprimento inicial.

Quais são seus argumentos? Como eles entendem a relação entre a última semana de Daniel e a Grande Tribulação?

Esse será o tema do próximo estudo.


Fonte:

PENTECOST, John Dwight.
Manual de Escatologia.
Editora Vida.

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