O SERMÃO DO MONTE DAS OLIVEIRAS — PARTE 1
INTRODUÇÃO
O chamado Sermão do Monte das Oliveiras, também conhecido como Sermão Profético, encontra-se registrado principalmente em Mateus 24–25, com passagens paralelas em Marcos 13 e Lucas 21.
Esse discurso foi pronunciado pelo Senhor Jesus poucos dias antes de Sua morte, no contexto de Sua última semana em Jerusalém. Depois de anunciar o juízo sobre Jerusalém e o templo, Jesus saiu do templo e, estando assentado no Monte das Oliveiras, respondeu às perguntas de Seus discípulos acerca dos acontecimentos que haveriam de ocorrer.
Para compreender corretamente esse sermão, é necessário observar tanto o seu contexto histórico quanto o seu contexto profético.
As perguntas dos discípulos estão relacionadas à destruição do templo, à vinda de Cristo e à consumação do século. Mateus registra essas questões de maneira mais ampla, enquanto Marcos 13 e Lucas 21 apresentam relatos paralelos, cada um enfatizando determinados aspectos da resposta do Senhor.
Neste estudo, adotaremos uma perspectiva dispensacionalista e pré-tribulacionista, entendendo que a parte profética do discurso possui Israel como seu principal foco dentro do programa de Deus para a Septuagésima Semana de Daniel.
Isso não significa ignorar o cumprimento histórico relacionado à destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. Pelo contrário, alguns elementos da profecia encontram paralelo ou cumprimento inicial naquele acontecimento. Entretanto, determinados aspectos do discurso apontam claramente para acontecimentos ainda futuros, especialmente aqueles relacionados à Grande Tribulação e à manifestação gloriosa de Cristo.
O objetivo desta série é acompanhar a sequência profética apresentada por Jesus, procurando distinguir aquilo que pertence ao passado daquilo que ainda aguarda cumprimento.
I — O CONTEXTO DO SERMÃO PROFÉTICO
Mateus 24 começa apresentando Jesus saindo do templo. Os discípulos chamam Sua atenção para as construções do templo, mas o Senhor responde anunciando que não ficaria pedra sobre pedra que não fosse derribada.
“Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada.”
Mateus 24.2
Essa declaração naturalmente despertou a curiosidade dos discípulos.
Quando chegaram ao Monte das Oliveiras, eles fizeram perguntas ao Senhor:
“Dize-nos quando sucederão estas coisas e que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século.”
Mateus 24.3
A pergunta apresenta três elementos importantes:
- Quando sucederiam essas coisas;
- Qual seria o sinal da vinda de Cristo;
- Qual seria o sinal da consumação do século.
Jesus então apresenta uma sequência de acontecimentos que conduz o leitor desde os sinais iniciais até a manifestação do Filho do Homem.
É importante observar que o discurso não deve ser interpretado como uma descrição desordenada de acontecimentos isolados. Existe nele uma progressão que conduz ao período de maior aflição, à manifestação de Cristo e aos acontecimentos relacionados ao estabelecimento do Seu Reino.
II — OS PRIMEIROS SINAIS
Jesus começa advertindo:
“Vede que ninguém vos engane.”
Mateus 24.4
O primeiro elemento destacado pelo Senhor é o engano religioso.
Ele continua:
“Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e enganarão a muitos.”
Mateus 24.5
Em seguida, aparecem outros acontecimentos:
- guerras e rumores de guerras;
- nação contra nação;
- reino contra reino;
- fomes;
- terremotos em vários lugares.
Jesus, porém, deixa claro que essas coisas ainda não representam o fim:
“Tudo isso, porém, é o princípio das dores.”
Mateus 24.8
A expressão “princípio das dores” indica que os acontecimentos mencionados constituem o início de um processo que alcançará intensidade ainda maior.
Por isso, é necessário cuidado para não identificar cada guerra, terremoto ou crise mundial de nossos dias como cumprimento direto de Mateus 24.
O próprio Senhor afirmou que esses acontecimentos são apenas o princípio das dores.
III — A PERSEGUIÇÃO E A APOSTASIA
Jesus prossegue descrevendo um cenário ainda mais grave:
“Então, sereis atribulados, e vos matarão. Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome.”
Mateus 24.9
O discurso passa então a destacar perseguição, apostasia, traição e esfriamento espiritual:
“Nesse tempo, muitos hão de se escandalizar, trair e odiar uns aos outros; levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos.”
Mateus 24.10-11
E acrescenta:
“E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos.”
Mateus 24.12
A situação será marcada por uma intensa deterioração espiritual e moral.
Entretanto, Jesus também apresenta uma promessa:
“Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo.”
Mateus 24.13
Dentro do contexto profético do discurso, essa perseverança deve ser compreendida à luz daqueles que estarão vivendo durante esse período de aflição. Não devemos aplicar automaticamente todas essas declarações à Igreja, ignorando o contexto profético relacionado a Israel.
IV — O EVANGELHO DO REINO
Jesus declara:
“E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim.”
Mateus 24.14
Aqui encontramos uma declaração de grande importância para a compreensão da cronologia profética.
O texto fala especificamente do Evangelho do Reino, que será proclamado em escala mundial antes da chegada do fim.
Essa proclamação está relacionada ao programa profético de Deus para o período que antecede a manifestação do Messias.
A expressão “então, virá o fim” demonstra que existe uma sequência entre a proclamação do Evangelho do Reino e a consumação dos acontecimentos descritos pelo Senhor.
Dentro da perspectiva dispensacionalista, isso deve ser distinguido da presente proclamação do evangelho da graça de Deus durante a era da Igreja. Embora haja uma única mensagem de salvação em Cristo, o contexto profético e a designação “Evangelho do Reino” possuem relação direta com a expectativa da manifestação do Rei e do Seu Reino.
V — A ABOMINAÇÃO DA DESOLAÇÃO
Chegamos a uma das declarações mais importantes do Sermão Profético:
“Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo...”
Mateus 24.15
Jesus remete Seus ouvintes diretamente ao livro de Daniel.
A expressão está relacionada especialmente às profecias de Daniel 9.27, 11.31 e 12.11.
Esse acontecimento possui uma dimensão histórica associada às profanações ocorridas no período dos reis helenísticos, especialmente sob Antíoco IV Epifânio. Entretanto, o próprio Jesus apresenta a “abominação da desolação” como um acontecimento ainda significativo em relação ao futuro, demonstrando que sua aplicação não se esgota nos acontecimentos anteriores ao nascimento de Cristo.
Paulo também descreve um personagem futuro que se levantará contra Deus e ocupará uma posição de extrema rebelião:
“o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus.”
2 Tessalonicenses 2.4
Essa conexão ajuda a compreender a gravidade do acontecimento anunciado por Jesus.
VI — A GRANDE TRIBULAÇÃO
Depois de mencionar a abominação da desolação, Jesus apresenta uma mudança significativa na intensidade dos acontecimentos:
“Porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais.”
Mateus 24.21
Aqui encontramos uma das principais referências bíblicas ao período conhecido como Grande Tribulação.
O Senhor afirma que será um período de aflição sem precedente.
“Não tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados.”
Mateus 24.22
O texto demonstra a intensidade extraordinária daquele período e, ao mesmo tempo, a intervenção soberana de Deus.
Na perspectiva dispensacionalista, a Grande Tribulação está diretamente relacionada à Septuagésima Semana de Daniel, conforme Daniel 9.24-27, e especialmente à segunda metade dessa semana profética.
É importante, porém, não transformar cada detalhe de Mateus 24 em uma equação cronológica isolada. O estudo deve ser feito comparando Mateus com Daniel, 2 Tessalonicenses e Apocalipse.
VII — FALSOS CRISTOS E FALSOS PROFETAS
Durante esse período haverá intensa atividade de falsificação religiosa:
“Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos.”
Mateus 24.24
Jesus alerta Seus discípulos para não acreditarem em anúncios de que o Messias estaria em determinado lugar:
“Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto!, não saiais. Ou: Ei-lo no interior da casa!, não acrediteis.”
Mateus 24.26
A razão é simples: a manifestação verdadeira do Filho do Homem não será secreta, limitada ou localizada.
Jesus descreve Sua manifestação de maneira pública e evidente:
“Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até no ocidente, assim há de ser a vinda do Filho do Homem.”
Mateus 24.27
A verdadeira manifestação do Messias será impossível de ser confundida com qualquer falsificação.
VIII — UMA CRONOLOGIA QUE CONDUZ À MANIFESTAÇÃO DE CRISTO
Ao observar o desenvolvimento de Mateus 24, percebemos uma progressão:
Engano → guerras e conflitos → dores → perseguição → apostasia → proclamação do Evangelho do Reino → abominação da desolação → Grande Tribulação → sinais cósmicos → manifestação do Filho do Homem.
Jesus continua:
“Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados.”
Mateus 24.29
Então aparecerá:
“o sinal do Filho do Homem no céu; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória.”
Mateus 24.30
Aqui chegamos à manifestação gloriosa do Messias.
Este acontecimento será desenvolvido de maneira mais ampla no estudo específico sobre a Segunda Vinda de Cristo.
IX — ISRAEL NO CENTRO DO PROGRAMA PROFÉTICO
Uma das razões pelas quais o contexto de Mateus 24 deve ser cuidadosamente relacionado às profecias de Israel é a presença de elementos diretamente ligados ao povo judeu.
Jesus fala do lugar santo, cita Daniel, menciona a profanação do santuário e descreve acontecimentos relacionados à expectativa messiânica.
Além disso, a profecia deve ser lida em conjunto com outras passagens que tratam do futuro de Israel.
“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade...”
Daniel 9.24
O “teu povo” é Israel, e a “santa cidade” é Jerusalém.
Portanto, dentro da interpretação dispensacionalista, a Septuagésima Semana de Daniel possui relação específica com o programa profético de Deus para Israel.
Isso não significa que os gentios estejam ausentes dos acontecimentos. As nações estarão envolvidas diretamente no cenário profético. Entretanto, o foco da profecia permanece relacionado ao programa divino para Israel.
CONCLUSÃO
O Sermão do Monte das Oliveiras apresenta uma das mais importantes exposições proféticas feitas pelo próprio Senhor Jesus.
Seu conteúdo não deve ser interpretado de maneira isolada. Mateus 24–25 precisa ser estudado em conjunto com Daniel, 2 Tessalonicenses, Apocalipse e outras profecias relacionadas ao futuro de Israel.
Neste primeiro artigo observamos o início da sequência apresentada por Cristo: os sinais iniciais, a perseguição, a proclamação do Evangelho do Reino, a abominação da desolação e a Grande Tribulação, até chegarmos à manifestação gloriosa do Filho do Homem.
Também estabelecemos um princípio importante para os próximos artigos: o Sermão possui uma sequência profética que deve ser respeitada na interpretação de seus acontecimentos.
No próximo artigo continuaremos acompanhando essa sequência, avançando para os acontecimentos relacionados à manifestação do Messias e às instruções dadas por Jesus àqueles que estarão vivendo naquele período.