ISRAEL NA TRIBULAÇÃO - PARTE I

O SERMÃO DO MONTE DAS OLIVEIRAS — PARTE 2

INTRODUÇÃO

Nos artigos anteriores, analisamos o chamado Sermão Profético do Monte das Oliveiras, registrado principalmente em Mateus 24–25, com passagens paralelas em Marcos 13 e Lucas 21.

Como observamos, o discurso foi proferido poucos dias antes da morte do Senhor Jesus e surgiu a partir das perguntas dos discípulos a respeito da destruição do templo, da Sua vinda e da consumação do século.

Embora parte das palavras de Jesus tenha encontrado um cumprimento histórico na destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., entendemos que o discurso também apresenta acontecimentos que apontam para o futuro, especialmente aqueles relacionados a Israel, à Grande Tribulação e à manifestação gloriosa do Messias.

Dentro da perspectiva dispensacionalista e pré-tribulacionista adotada nesta série, entendemos que a Igreja não é o foco principal dessa profecia. O discurso está especialmente relacionado ao programa profético de Deus para Israel e para as nações durante o período que culminará na Segunda Vinda de Cristo.

Neste artigo, continuaremos acompanhando a sequência apresentada por Jesus, concentrando-nos no ajuntamento de Israel e nas parábolas e ilustrações que acompanham a profecia.

Quanto à Segunda Vinda em si, não a desenvolveremos novamente aqui, pois esse assunto possui um estudo próprio em nosso Hub sobre a Segunda Vinda de Cristo.

I — O AJUNTAMENTO DE ISRAEL

Depois de descrever os acontecimentos que precederão Sua manifestação gloriosa, Jesus declara:

“E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus.”

Mateus 24.31

Esse versículo apresenta um acontecimento posterior à manifestação do Filho do Homem.

Dentro da interpretação dispensacionalista, entendemos que esse ajuntamento está relacionado à restauração e reunião do remanescente de Israel após o período da Grande Tribulação.

O povo judeu terá sido espalhado durante os acontecimentos finais. A perseguição promovida por Satanás e pelo sistema do Anticristo alcançará grande intensidade, especialmente durante a segunda metade da Septuagésima Semana de Daniel.

Apocalipse 12 descreve essa perseguição contra a mulher, identificada nessa interpretação com Israel:

“Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar com os restantes da sua descendência...”

Apocalipse 12.17

A promessa de que Deus reuniria novamente Israel, entretanto, não começa no Novo Testamento. Ela já estava presente nas alianças e profecias do Antigo Testamento.

“Então, o SENHOR, teu Deus, mudará a tua sorte, e se compadecerá de ti, e te ajuntará, de novo, de entre todos os povos entre os quais te houver espalhado o SENHOR, teu Deus.”

Deuteronômio 30.3

O profeta Ezequiel também apresenta uma restauração futura de Israel, utilizando a linguagem de separação, purificação e reunião do povo:

“Eu vos tirarei dentre os povos, e vos congregarei das terras nas quais fostes espalhados...”

Ezequiel 20.34

Portanto, Mateus 24.31 deve ser lido dentro desse amplo contexto profético.

O Messias, ao retornar em glória, reunirá os Seus escolhidos. Os anjos serão instrumentos desse ajuntamento, conforme o próprio texto declara.

A expressão “seus escolhidos” deve ser entendida de acordo com o contexto do discurso. Dentro da perspectiva que estamos adotando, ela se relaciona ao povo de Israel que estará sendo tratado por Deus naquele período.

Isso é coerente com a linguagem utilizada no Antigo Testamento para designar Israel como povo escolhido:

“Porque és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio...”

Deuteronômio 7.6

Assim, o ajuntamento de Mateus 24.31 está relacionado ao cumprimento das promessas de Deus para Israel e à preparação para o estabelecimento do Reino Messiânico.

II — A PARÁBOLA DA FIGUEIRA

Depois de apresentar os acontecimentos futuros, Jesus utiliza uma ilustração conhecida:

“Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, sabeis que está próximo o verão.”

Mateus 24.32

A figura é simples: quando os sinais próprios da chegada do verão aparecem, ninguém precisa esperar que o verão seja visível para saber que ele está próximo.

Jesus aplica a mesma lógica aos acontecimentos que acabara de apresentar:

“Assim também vós, quando virdes todas estas coisas, sabei que está próximo, às portas.”

Mateus 24.33

O ponto principal da ilustração é a certeza da proximidade do acontecimento quando os sinais proféticos estiverem ocorrendo.

É importante, entretanto, ter cautela com uma interpretação que transforme automaticamente a figueira em um símbolo exclusivo de Israel.

É verdade que a figueira pode representar Israel em determinadas passagens, como ocorre em alguns contextos proféticos. Porém, isso não significa que toda ocorrência da figueira na Bíblia tenha necessariamente esse significado.

O próprio contexto de Mateus 24 favorece uma leitura mais simples da parábola: assim como o surgimento das folhas indica a proximidade do verão, os acontecimentos anteriormente descritos por Jesus indicarão a proximidade de Sua manifestação.

O objetivo principal da parábola não é identificar a figueira, mas ensinar os discípulos a reconhecerem a proximidade do acontecimento quando os sinais proféticos se cumprirem.

III — “NÃO PASSARÁ ESTA GERAÇÃO”

Jesus acrescenta uma declaração que tem provocado diferentes interpretações:

“Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.”

Mateus 24.34

A expressão “esta geração” tem sido interpretada de diferentes maneiras.

Alguns entendem que Jesus estava se referindo à geração que vivia naquela época, relacionando a declaração à destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.

Outros entendem que a expressão aponta para a geração que estará viva quando os sinais proféticos descritos no discurso começarem a ocorrer.

Há ainda intérpretes que entendem o termo grego genea em um sentido relacionado a raça, descendência ou povo, aplicando-o especialmente à preservação de Israel.

Essa última interpretação possui relevância dentro da perspectiva dispensacionalista, pois se harmoniza com as promessas bíblicas de preservação nacional de Israel.

Contudo, é necessário reconhecer que o significado de genea deve ser determinado pelo contexto e pelo uso da palavra no Novo Testamento. Não devemos estabelecer uma interpretação simplesmente porque ela favorece determinado sistema escatológico.

O ponto fundamental da declaração de Jesus permanece: aquilo que Ele anunciou certamente acontecerá.

Isso é confirmado imediatamente pelo versículo seguinte:

“Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão.”

Mateus 24.35

A certeza da profecia não está na capacidade humana de interpretar os acontecimentos, mas na autoridade daquele que os anunciou.

IV — A INCERTEZA DA HORA

Depois de apresentar sinais e acontecimentos que caracterizariam o período, Jesus estabelece uma importante distinção:

“Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai.”

Mateus 24.36

Aqui encontramos um princípio fundamental.

Os acontecimentos proféticos podem revelar a proximidade da manifestação de Cristo, mas não permitem estabelecer antecipadamente o dia e a hora.

Por isso, a profecia não foi dada para alimentar especulações cronológicas, mas para produzir vigilância.

Jesus utiliza então os dias de Noé como ilustração:

“Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem.”

Mateus 24.37

O destaque da comparação não está simplesmente na imoralidade daquela geração, mas principalmente na sua falta de preparação diante do juízo que se aproximava.

As pessoas continuavam suas atividades normais:

“Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca...”

Mateus 24.38

Então veio o juízo.

A lição é clara: o acontecimento será certo, embora sua hora não seja conhecida.

V — DUAS PESSOAS NO CAMPO E DUAS NO MOINHO

Jesus continua:

“Então, dois estarão no campo, um será tomado, e deixado o outro; duas estarão trabalhando num moinho, uma será tomada, e deixada a outra.”

Mateus 24.40-41

Esses versículos são frequentemente relacionados ao arrebatamento da Igreja. Entretanto, dentro da estrutura do próprio discurso, é preciso ter cuidado para não retirar esses versículos do contexto.

O assunto tratado imediatamente antes é a vinda do Filho do Homem em juízo, comparada aos dias de Noé.

No relato de Noé, aqueles que foram alcançados pelo juízo pereceram, enquanto Noé e sua família permaneceram vivos na arca.

Lucas apresenta uma linguagem semelhante e, quando os discípulos perguntam:

“Onde será isso, Senhor?”

Lucas 17.37

Jesus responde:

“Onde estiver o corpo, aí se ajuntarão também os abutres.”

Lucas 17.37

A imagem aponta para julgamento.

Portanto, dentro da interpretação que estamos seguindo, Mateus 24.40-41 não deve ser usado como uma descrição direta do arrebatamento da Igreja. O contexto aponta para a separação que ocorrerá em conexão com a manifestação de Cristo e o julgamento daqueles que estarão vivos na terra.

Essa distinção é importante porque Arrebatamento e Segunda Vinda são eventos distintos dentro do programa profético, embora relacionados ao plano escatológico de Deus.

VI — O SERVO FIEL E O SERVO MAU

Jesus encerra essa parte do discurso utilizando a figura de dois servos.

O primeiro é apresentado como fiel e prudente:

“Quem é, pois, o servo fiel e prudente, a quem o senhor confiou os seus conservos para dar-lhes o alimento a seu tempo?”

Mateus 24.45

Esse servo é encontrado trabalhando quando seu senhor retorna.

Por outro lado, Jesus apresenta o servo mau:

“Mas, se aquele servo, sendo mau, disser consigo mesmo: Meu senhor demora-se...”

Mateus 24.48

A diferença entre eles não está na informação que possuíam sobre o retorno do senhor, mas na maneira como viveram diante dessa expectativa.

O servo fiel permaneceu trabalhando.

O servo mau passou a agir como se o senhor não fosse voltar.

Jesus conclui:

“Virá o senhor daquele servo em dia em que não o espera e em hora que não sabe.”

Mateus 24.50

Mais uma vez, aparece o mesmo princípio:

A certeza da vinda exige vigilância.

VII — A GRANDE LIÇÃO DO SERMÃO

Ao observarmos essas parábolas e ilustrações em conjunto, encontramos uma progressão muito significativa.

Jesus apresenta:

  1. os acontecimentos que antecederão Sua manifestação;
  2. o Seu retorno glorioso;
  3. o ajuntamento dos escolhidos;
  4. a ilustração da figueira;
  5. a certeza de que Suas palavras se cumprirão;
  6. a incerteza quanto ao dia e à hora;
  7. os dias de Noé;
  8. a separação entre pessoas;
  9. o servo fiel e o servo mau.

Tudo converge para uma única advertência:

“Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor.”

Mateus 24.42

A profecia não foi dada para satisfazer curiosidade, mas para produzir vigilância, fidelidade e preparação.

CONCLUSÃO

O Sermão Profético do Monte das Oliveiras apresenta uma sequência de acontecimentos que, dentro da perspectiva dispensacionalista, encontra seu cumprimento final no programa profético relacionado a Israel e às nações.

Neste artigo, avançamos da manifestação gloriosa do Messias para o ajuntamento dos escolhidos de Israel e, em seguida, examinamos as ilustrações utilizadas por Jesus para ensinar sobre a certeza e a imprevisibilidade de Sua vinda.

A parábola da figueira demonstra que os acontecimentos anunciados permitirão reconhecer a proximidade do cumprimento profético.

A referência aos dias de Noé mostra que o juízo virá enquanto muitos estarão envolvidos normalmente com suas atividades.

As figuras dos dois trabalhadores e dos dois servos reforçam a necessidade de vigilância.

O ponto central permanece:

Cristo voltará, e ninguém poderá impedir o cumprimento de Suas palavras.

A Segunda Vinda possui um papel central nessa cronologia profética e será estudada de forma específica em nosso Hub sobre a Segunda Vinda de Cristo, onde reunimos os artigos relacionados a esse tema.

No próximo artigo concluiremos nosso estudo do Sermão do Monte das Oliveiras, examinando especialmente o julgamento de Israel, a parábola das dez virgens, a parábola dos talentos e o julgamento das nações.


FONTE PRINCIPAL

PENTECOST, J. Dwight. Manual de Escatologia. Editora Vida.