A IDENTIDADE DOS 24 ANCIÃOS E A RELAÇÃO DA IGREJA COM A TRIBULAÇÃO
INTRODUÇÃO
Ao estudarmos os fundamentos do pré-tribulacionismo, observamos que a Igreja possui uma relação distinta dentro do plano profético de Deus. Conforme essa interpretação, a Igreja será retirada da terra antes do início da Septuagésima Semana de Daniel, período conhecido como Grande Tribulação.
Entretanto, para compreendermos melhor essa posição, precisamos analisar alguns elementos importantes encontrados no livro de Apocalipse. Um desses elementos é a figura dos 24 anciãos, apresentados nos capítulos 4 e 5.
A identificação desses anciãos possui grande importância para a interpretação escatológica, pois eles aparecem no céu antes do início dos juízos descritos nos capítulos seguintes. Assim, a compreensão sobre quem eles representam está diretamente ligada à questão da presença ou ausência da Igreja durante a Tribulação.
O próprio livro de Apocalipse apresenta uma divisão estabelecida pelo Senhor Jesus em Apocalipse 1.19:
"Escreve as coisas que tens visto, e as que são, e as que depois destas hão de acontecer."
A primeira parte refere-se à visão do Cristo glorificado (Apocalipse 1). A segunda corresponde ao período da Igreja representado pelas sete cartas (Apocalipse 2 e 3). A terceira inicia-se com os acontecimentos futuros, a partir de Apocalipse 4.
João inicia essa nova seção com a expressão:
"Depois destas coisas" (Apocalipse 4.1).
A partir desse momento, ele contempla uma visão celestial: o trono de Deus e aqueles que estão ao redor dele.
"Ao redor do trono havia vinte e quatro tronos; e assentados sobre os tronos vinte e quatro anciãos vestidos de vestes brancas; e tinham sobre suas cabeças coroas de ouro."
(Apocalipse 4.4)
A pergunta fundamental é: quem são esses 24 anciãos?
I - O MINISTÉRIO DOS 24 ANCIÃOS
Antes de analisarmos sua identidade, precisamos compreender sua função.
No Antigo Testamento, os anciãos eram representantes do povo e exerciam funções de liderança e julgamento.
"Os anciãos de Israel não eram apenas representantes do povo, mas juízes, logo, representantes de Deus para julgar o povo."
No Novo Testamento, o conceito permanece semelhante. O ancião representa alguém que governa, lidera ou exerce autoridade concedida por Deus (Atos 15.2; 20.17).
No livro de Apocalipse, os 24 anciãos aparecem constantemente envolvidos na adoração e no desenvolvimento do plano divino.
- Adoram diante do trono;
- Possuem harpas e taças de incenso;
- Interpretam acontecimentos celestiais;
- Participam das cenas de julgamento;
- Glorificam a Deus pela redenção e pelo estabelecimento do Reino.
Scott observa:
"As ações e os serviços variados dos quais eles tomam parte demonstram claramente que são representantes dos santos redimidos e ressurretos."
O número vinte e quatro está relacionado com 1 Crônicas 24 e 25, quando Davi organizou o sacerdócio levítico em 24 turnos.
A Igreja é descrita no Novo Testamento como um sacerdócio:
"Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo."
(1 Pedro 2.5)
II - AS PRINCIPAIS INTERPRETAÇÕES SOBRE A IDENTIDADE DOS ANCIÃOS
1. SERES ANGELICAIS
Alguns intérpretes defendem que os anciãos são seres angelicais.
Entretanto, essa interpretação encontra dificuldades no próprio texto bíblico.
"E olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos seres viventes, e dos anciãos."
(Apocalipse 5.11)
O texto apresenta três grupos distintos:
- Anjos;
- Seres viventes;
- Anciãos.
Além disso, os anciãos possuem características que não são atribuídas aos anjos:
- Recebem coroas;
- Assentam-se em tronos;
- Cantam louvores relacionados à redenção.
2. SANTOS DO ANTIGO E DO NOVO TESTAMENTO
Outra interpretação afirma que os 24 anciãos representam todos os santos redimidos, incluindo Israel e a Igreja.
Embora essa posição possua argumentos interessantes, ela apresenta dificuldades dentro da perspectiva dispensacionalista, pois une grupos que possuem planos proféticos distintos.
Israel possui promessas relacionadas ao Reino terreno e à restauração nacional, enquanto a Igreja possui promessas relacionadas à sua união celestial com Cristo.
III - OS 24 ANCIÃOS REPRESENTAM A IGREJA
1. O número 24 e o sacerdócio
O número 24 está relacionado ao sacerdócio organizado por Davi.
A Igreja é apresentada como sacerdócio espiritual:
"Vós sois a geração eleita, o sacerdócio real."
(1 Pedro 2.9)
2. Os tronos dos anciãos
Apocalipse 4.4 apresenta os anciãos assentados em tronos.
"Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono."
(Apocalipse 3.21)
3. As vestes brancas
As vestes brancas representam pureza e justiça concedida aos redimidos.
"O que vencer será vestido de vestes brancas."
(Apocalipse 3.5)
4. As coroas de vitória
Os anciãos possuem coroas chamadas stephanos, relacionadas à vitória e recompensa.
Isso aponta para pessoas que passaram por julgamento e receberam recompensa, algo relacionado ao Tribunal de Cristo.
5. A adoração relacionada à redenção
Os anciãos adoram a Deus pela criação, redenção, julgamento e estabelecimento do Reino.
"Digno és de tomar o livro e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação."
(Apocalipse 5.9)
6. O conhecimento dos planos de Deus
Os anciãos demonstram conhecimento dos acontecimentos celestiais e participam da revelação dos planos divinos.
7. O ministério sacerdotal
"Cada um deles tinha uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos."
(Apocalipse 5.8)
CONCLUSÃO
A identificação dos 24 anciãos possui grande importância para compreender a relação entre a Igreja e a Grande Tribulação.
Dentro da interpretação pré-tribulacionista, os argumentos apresentados indicam que esses anciãos representam a Igreja glorificada no céu antes do início dos juízos descritos em Apocalipse 6.
Eles aparecem:
- Coroados;
- Vestidos de branco;
- Assentados em tronos;
- Adorando diante do trono de Deus.
Assim, a presença dos 24 anciãos no céu antes da abertura dos selos é entendida como uma evidência de que a Igreja não estará presente na terra durante a Septuagésima Semana de Daniel.
FONTE: Manual de Escatologia
AUTOR: John Dwight Pentecost
EDITORA: Vida