A HISTÓRIA DA DOUTRINA DO SEGUNDO ADVENTO – PARTE II
INTRODUÇÃO
No artigo anterior apresentamos as principais posições relacionadas à Segunda Vinda de Cristo e ao Milênio, observando as diferenças entre as interpretações não literal, pós-milenarista, amilenarista e pré-milenarista. Neste estudo, daremos continuidade ao tema analisando como a Igreja Primitiva compreendia a esperança do Segundo Advento e qual foi sua relação com o pré-milenarismo.
Historicamente, muitos estudiosos reconhecem que os primeiros séculos da Igreja demonstraram forte expectativa quanto ao retorno visível de Cristo e ao estabelecimento do Reino prometido. A questão central, portanto, é compreender de que maneira os cristãos do período pós-apostólico interpretavam as promessas bíblicas acerca do Reino e da consumação escatológica.
I – A SEGUNDA VINDA NA IGREJA PRIMITIVA
É amplamente reconhecido que a Igreja dos primeiros séculos possuía forte expectativa escatológica acerca do retorno de Cristo. Diversos estudiosos da história da doutrina admitem que o pré-milenarismo (ou quiliasmo) esteve presente entre muitos cristãos do período imediatamente posterior aos apóstolos.
Mesmo autores contrários ao pré-milenarismo reconhecem sua presença significativa. O teólogo Allis, um dos expoentes do amilenarismo, admitiu que a crença no reino milenar era amplamente encontrada na Igreja Primitiva, embora posteriormente tenha perdido espaço diante de interpretações espiritualizadas.
Da mesma forma, Whitby — considerado um dos formuladores do pós-milenarismo — reconheceu que, durante aproximadamente os primeiros 250 anos da Igreja, a crença no reino milenar era frequentemente tratada como tradição apostólica, sendo sustentada por diversos líderes cristãos.
O historiador Schaff também reconheceu a importância do quiliasmo na era pré-nicena, descrevendo-o como uma crença amplamente difundida entre mestres cristãos dos primeiros séculos, ainda que não formalizada como credo oficial da Igreja.
Essa constatação histórica levanta uma questão importante: como os primeiros cristãos compreendiam as promessas do Reino e do retorno de Cristo? Para responder, vale observar os nomes frequentemente associados à defesa dessa expectativa escatológica.
II – OS EXPOENTES DO PRÉ-MILENARISMO
A) Defensores do pré-milenarismo no Século I
Diversos estudiosos apontam que os primeiros discípulos de Cristo preservaram uma expectativa literal do Reino messiânico associado ao Segundo Advento.
Entre os nomes frequentemente citados estão:
- André
- Pedro
- Filipe
- Tomé
- João
- Mateus
- Tiago
- Arístion
- João, o Presbítero
Esses nomes são mencionados por Papias e citados posteriormente por escritores da Igreja, sendo frequentemente associados à esperança do Reino messiânico futuro.
Também são lembrados:
- Clemente de Roma (c. 40–100 d.C.)
- Barnabé (c. 40–100 d.C.)
- Hermas (c. 40–100 d.C.)
- Inácio de Antioquia (c. 50–115 d.C.)
- Policarpo de Esmirna (c. 70–167 d.C.)
- Papias de Hierápolis (c. 80–163 d.C.)
Segundo intérpretes favoráveis ao quiliasmo, não há evidências de oposição sistemática ao pré-milenarismo durante esse período, sendo a expectativa do Reino futuro encontrada entre líderes e comunidades cristãs.
B) Defensores do pré-milenarismo no Século II
Entre os escritores e líderes cristãos do século II frequentemente relacionados à esperança milenar encontram-se:
- Potino (c. 87–177 d.C.)
- Justino Mártir (c. 100–168 d.C.)
- Melito, bispo de Sardes (c. 100–170 d.C.)
- Hegésipo (c. 130–190 d.C.)
- Taciano (c. 130–190 d.C.)
- Irineu de Lião (c. 140–202 d.C.)
- As igrejas de Viena e Lião
- Tertuliano (c. 150–220 d.C.)
- Hipólito (c. 160–240 d.C.)
Os defensores dessa interpretação argumentam que, nesse período, não existia oposição organizada contra o quiliasmo e que a expectativa do Reino messiânico era largamente compartilhada entre líderes reconhecidos da Igreja.
C) Defensores do pré-milenarismo no Século III
No século III, ainda encontramos testemunhos ligados à expectativa do Reino futuro e do retorno visível de Cristo.
Entre os nomes frequentemente citados estão:
- Cipriano (c. 200–258 d.C.)
- Cômodo (c. 200–270 d.C.)
- Nepo, bispo de Arsinoe (c. 230–280 d.C.)
- Corácio (c. 230–280 d.C.)
- Vitorino (c. 240–303 d.C.)
- Metódio de Olimpo (c. 250–311 d.C.)
- Lactâncio (c. 240–330 d.C.)
Embora a clareza das formulações variasse entre esses autores, muitos deles demonstravam expectativa concreta do Reino messiânico e do cumprimento literal das promessas escatológicas.
III – TESTEMUNHOS DA IGREJA PRIMITIVA
Clemente de Roma
Clemente de Roma demonstrava forte expectativa da iminência do retorno do Senhor, afirmando:
“Certamente venho sem demora.”
Seu testemunho evidencia que a esperança do retorno de Cristo fazia parte da espiritualidade cristã primitiva.
Justino Mártir
Justino Mártir foi um dos mais explícitos defensores da expectativa milenar. Em seu Diálogo com Trifo, afirmou:
“Eu e qualquer um que somos em todos os aspectos cristãos decididos sabemos que haverá a ressurreição dos mortos e mil anos em Jerusalém...”
Para Justino, a esperança do Reino futuro fazia parte da fé cristã ortodoxa, estando ligada à ressurreição e ao cumprimento das profecias.
Irineu de Lião
Irineu desenvolveu uma escatologia mais estruturada, defendendo um Reino futuro associado ao retorno de Cristo e ao cumprimento das promessas feitas a Israel.
Ele ensinava que, após a manifestação do anticristo e do período de tribulação, Cristo retornaria em glória, derrotaria seus inimigos e inauguraria o período do Reino prometido.
Tertuliano
Tertuliano também reconheceu a esperança de um Reino terreno associado ao período posterior à ressurreição:
“Nós confessamos que um reino sobre a terra nos é prometido [...] depois da ressurreição.”
Seu testemunho demonstra que essa expectativa ainda permanecia significativa nos séculos posteriores da Igreja.
IV – A ORTODOXIA E O REINO FUTURO
Alguns escritores antigos, especialmente Justino Mártir e Irineu, distinguiram entre aqueles que afirmavam a ressurreição e o Reino futuro e aqueles que alegorizavam tais promessas.
Segundo essa compreensão, havia:
- Aqueles que negavam a ressurreição e o Reino futuro.
- Os que defendiam a ressurreição e o reinado de Cristo.
- Os que reinterpretavam alegoricamente as promessas escatológicas.
Essa distinção demonstra que a discussão sobre o Reino e o Milênio já ocupava espaço importante no pensamento cristão dos primeiros séculos.
CONCLUSÃO
Ao examinarmos o testemunho histórico da Igreja Primitiva, percebemos que a esperança do Segundo Advento de Cristo ocupava lugar central na expectativa cristã. Muitos escritores dos primeiros séculos demonstraram compreender as promessas do Reino de maneira concreta e futura, frequentemente associadas ao retorno visível de Cristo.
Embora o pré-milenarismo não tenha sido formalizado como credo universal da Igreja, há amplo reconhecimento de que ele exerceu forte influência nos séculos iniciais do cristianismo.
Contudo, essa compreensão não permaneceria incontestada. Nos séculos posteriores surgiriam novas leituras das profecias bíblicas, culminando na ascensão do amilenarismo e em diferentes formas de interpretação espiritualizada do Reino.
No próximo artigo analisaremos os oponentes do pré-milenarismo e a ascensão do amilenarismo na história da interpretação escatológica.
FONTES CONSULTADAS
- Manual de Escatologia — J. Dwight Pentecost. Editora Vida.
- Escritos patrísticos: Clemente de Roma, Justino Mártir, Irineu de Lião e Tertuliano.
- Estudos históricos sobre quiliasmo, Igreja Primitiva e escatologia cristã.