A HISTÓRIA DA DOUTRINA DO SEGUNDO ADVENTO – PARTE IV
INTRODUÇÃO
O objetivo desta série é apresentar uma visão histórica das principais posições escatológicas relacionadas ao quiliasmo. Já observamos que o pré-milenarismo é considerado por muitos estudiosos como a interpretação mais antiga da Igreja, tendo sido progressivamente questionado a partir do século III por correntes que, na história eclesiástica posterior, foram amplamente debatidas e reformuladas.
Com o abandono progressivo do método literal de interpretação bíblica, especialmente a partir da influência de Orígenes e da Escola de Alexandria, o pré-milenarismo perdeu espaço, dando lugar a outras leituras do Milênio. Neste artigo, trataremos da ascensão do amilenarismo e do eclipse do pré-milenarismo na história da teologia cristã.
I – A ASCENSÃO DO AMILENARISMO
No artigo anterior, destacamos que um dos fatores decisivos para o enfraquecimento do pré-milenarismo foi a influência de Agostinho de Hipona. Com ele, houve uma crescente sistematização de uma interpretação espiritual do Milênio, que posteriormente se consolidou como amilenarismo.
Embora Orígenes já tivesse estabelecido um forte impulso ao método alegórico de interpretação, foi Agostinho quem organizou de forma mais consistente uma leitura não literal de Apocalipse 20.
“Seu pensamento não apenas cristalizou a teologia que o precedera, mas estabeleceu a base de ambas as doutrinas, católica e protestante. B. B. Warfield, citando Harnack, refere-se a Agostinho como ‘incomparavelmente o maior homem que a Igreja possuiu entre o apóstolo Paulo e Lutero’. Embora sua contribuição seja amplamente reconhecida na doutrina da Igreja, na hamartiologia, na graça e na predestinação, ele também representa um marco significativo na história do amilenarismo.”
Importância de Agostinho para o amilenarismo
1. Ausência de sistematização anterior
Antes de Agostinho, não havia uma formulação teológica estruturada do amilenarismo. As posições espirituais sobre o Milênio estavam mais associadas à Escola de Alexandria.
2. Influência na teologia ocidental
O pensamento agostiniano tornou-se base da teologia católica e influenciou reformadores protestantes, contribuindo para o declínio do pré-milenarismo institucional.
II – A POSIÇÃO DE AGOSTINHO SOBRE O MILÊNIO
A obra A Cidade de Deus é considerada uma das mais influentes na formação da interpretação amilenarista. Nela, Agostinho identifica o Reino de Deus com a própria Igreja.
“Ele ensinou que o Milênio deve ser interpretado espiritualmente como cumprido pela Igreja. Defendia que o aprisionamento de Satanás ocorreu durante o ministério terreno de Cristo (Lucas 10.18), que a primeira ressurreição é o novo nascimento (João 5.25), e que o Milênio corresponde ao período entre os dois adventos, ou seja, à era da Igreja.”
Essa interpretação entende Apocalipse 20:1–6 como recapitulação simbólica e não como sequência cronológica.
Principais conclusões do pensamento de Agostinho
- O Milênio não ocorre após a Segunda Vinda, mas durante a era da Igreja.
- O Milênio corresponde ao período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo.
- A Igreja é identificada como o Reino de Deus, sem cumprimento literal das promessas nacionais a Israel.
III – O ECLIPSE DO PRÉ-MILENARISMO
Com a consolidação do cristianismo institucional e do sistema eclesiástico romano, o pré-milenarismo foi gradualmente marginalizado.
“O quiliasmo desapareceu proporcionalmente à medida que o catolicismo papal romano avançava. O papado tomou para si a glória que pertence à esperança da Igreja, transferindo-a para a realidade institucional presente.”
“O espírito e o objetivo do papado tornaram-se antagonistas à expectativa da Igreja primitiva, ao transferir para a instituição eclesiástica promessas que apontavam para o Reino futuro de Cristo.”
Nesse processo, o Reino passou a ser identificado com a estrutura visível da Igreja, reinterpretando as promessas escatológicas.
IV – REMANESCENTE PRÉ-MILENARISTA
Apesar do domínio do amilenarismo na teologia medieval, o pré-milenarismo não desapareceu completamente.
- Valdenses
- Paulicianos
- Cátaros
- Lollardos
- Discípulos de Wicliff
- Cristãos boêmios
Esses grupos preservaram, em diferentes níveis, a esperança escatológica literal do Reino futuro de Cristo.
CONCLUSÃO
A ascensão do amilenarismo ocorreu por um processo histórico gradual, envolvendo mudanças interpretativas e influências institucionais.
Agostinho teve papel decisivo na consolidação da leitura espiritual do Milênio, que dominou a teologia ocidental por séculos.
Mesmo assim, o pré-milenarismo permaneceu vivo em movimentos ao longo da história da Igreja.
No próximo artigo, abordaremos o desenvolvimento do Milênio a partir da Reforma Protestante.
FONTES
- Manual de Escatologia — J. Dwight Pentecost (Editora Vida)
- J. F. Walvoord — estudos em escatologia
- Philip Schaff — History of the Christian Church
- J. L. Mosheim — Ecclesiastical History
- Auberlen — estudos sobre Apocalipse