A DOUTRINA BÍBLICA DO MILÊNIO: AS ALIANÇAS DE ISRAEL E A PRISÃO DE SATANÁS

A DOUTRINA BÍBLICA DO MILÊNIO – PARTE I

É perceptível ao estudante das profecias bíblicas que grande parte das Escrituras proféticas apresenta promessas e características relacionadas ao Reino Messiânico e ao período em que Cristo exercerá Seu governo sobre a terra. Por isso, o estudo do Milênio exige atenção especial e cuidadosa análise das Escrituras.

É necessário reconstruir, com base na revelação bíblica, os principais aspectos desse Reino. Embora existam diferentes interpretações sobre o Milênio, é a Palavra de Deus que deve constituir o fundamento da investigação e da compreensão desse período.

Nesta primeira parte, veremos duas questões fundamentais: a relação do Milênio com as alianças de Deus e a relação do Milênio com Satanás.

I — A RELAÇÃO DO MILÊNIO COM AS ALIANÇAS DE ISRAEL

Já tratamos anteriormente das alianças relacionadas a Israel, embora algumas delas ainda recebam estudos específicos dentro da sequência das doutrinas escatológicas. O conhecimento dessas promessas fornece uma base importante para compreender sua relação com o Reino Messiânico.

Dentro da interpretação pré-milenarista, quatro alianças possuem dimensões proféticas que aguardam cumprimento futuro e encontram no Reino Milenar uma importante expressão histórica de suas promessas:

1. Aliança Abraâmica

A Aliança Abraâmica estabelece promessas relacionadas à descendência de Abraão, à terra e à bênção que alcançaria as nações.

Referências: Gênesis 12.1-3; 13.14-17; 15.18-21; 17.4-8; 22.15-18.

As Escrituras posteriores desenvolvem essas promessas e apontam para a restauração futura de Israel, sua descendência e sua relação com a terra prometida.

Dentro da interpretação pré-milenarista, o Milênio constitui um período importante para o cumprimento histórico e messiânico de dimensões dessas promessas, especialmente aquelas relacionadas à restauração de Israel e à posse da terra.

2. Aliança Davídica

A Aliança Davídica estabelece promessas relacionadas à casa de Davi, ao trono e ao reino.

Referências: 2 Samuel 7.12-16; Salmos 89.3-4, 34-37; Isaías 9.6-7; Jeremias 23.5-6; 33.17-22.

A promessa de um descendente que ocuparia o trono de Davi constitui uma das bases da expectativa messiânica apresentada pelas Escrituras.

Dentro da interpretação pré-milenarista, o Reino Milenar representa a manifestação histórica do governo messiânico prometido na linhagem de Davi.

A relação entre Cristo e esse Reino será desenvolvida na próxima parte deste estudo.

3. Aliança da Terra

A chamada Aliança Palestínica, também denominada por alguns estudiosos de Aliança da Terra, apresenta promessas relacionadas à restauração de Israel e à posse da terra.

Referências: Deuteronômio 30.1-10; Isaías 11.11-12; 65.9; Ezequiel 36.24-29; 39.27-29; Zacarias 10.6.

Deuteronômio 30 é especialmente importante porque relaciona o retorno de Israel à sua terra com sua restauração e obediência ao Senhor.

Na interpretação pré-milenarista, essas promessas possuem uma dimensão futura que encontra expressão no Reino Messiânico.

4. Nova Aliança

A Nova Aliança apresenta promessas relacionadas ao perdão dos pecados, à transformação interior e ao relacionamento restaurado com Deus.

Referências: Jeremias 31.31-34; 32.37-40; Ezequiel 36.25-27; 37.26-28; Romanos 11.25-29.

A Nova Aliança já possui uma dimensão inaugurada por meio da obra de Cristo. O Novo Testamento aplica suas bênçãos aos que estão em Cristo.

Entretanto, os profetas também apresentam uma dimensão futura relacionada à restauração de Israel. Na interpretação pré-milenarista, essa dimensão encontra expressão no Reino Messiânico, quando Israel experimentará a restauração espiritual prometida nas Escrituras.

Assim, não se deve entender que todas as promessas dessas alianças começam a existir somente no Milênio. Algumas já encontram cumprimento histórico e espiritual, enquanto outras apontam para uma consumação futura.

Dentro da interpretação pré-milenarista, o Milênio constitui um período importante no desenvolvimento histórico do cumprimento das promessas feitas por Deus a Israel, especialmente aquelas relacionadas à restauração nacional, à terra e ao governo messiânico.

II — A RELAÇÃO DO MILÊNIO COM SATANÁS

A relação entre o Milênio e Satanás é apresentada de maneira direta em Apocalipse 20.1-3.

João vê um anjo descendo do céu, prendendo Satanás e lançando-o no abismo, onde ele permanecerá durante mil anos:

“E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem.”

Apocalipse 20.3

O texto estabelece uma relação direta entre o período de mil anos e a restrição da atividade de Satanás.

Atualmente, Satanás é apresentado nas Escrituras como aquele que atua no presente século e procura se opor aos propósitos de Deus (2 Coríntios 4.4; 1 Pedro 5.8).

Durante o Milênio, porém, sua atuação será radicalmente restringida. Apocalipse 20.1-3 afirma que ele será preso e impedido de enganar as nações durante os mil anos.

Essa realidade estará relacionada ao caráter do Reino Messiânico, no qual Cristo exercerá Seu governo e a justiça divina será manifestada de maneira ampla.

As Escrituras proféticas apresentam esse período como uma era de justiça e retidão:

Isaías 11.3-5 — o governante messiânico julgará com justiça;

Isaías 32.1 — um rei reinará com justiça;

Jeremias 23.5-6 — o Renovo de Davi exercerá juízo e justiça.

A prisão de Satanás, portanto, constitui um dos elementos distintivos do período descrito em Apocalipse 20.

Entretanto, essa prisão não significa que todos os seres humanos serão interiormente regenerados ou que a possibilidade de pecado deixará de existir durante o Milênio. O próprio relato de Apocalipse 20 mostra que, depois dos mil anos, Satanás será solto por breve período e encontrará pessoas dispostas a se rebelar contra Deus (Apocalipse 20.7-9).

Dentro da interpretação pré-milenarista, esse acontecimento demonstra que a restrição da atividade satânica não equivale à eliminação da natureza pecaminosa humana.

Por isso, a ideia de que o Milênio funcionará como uma demonstração da condição humana mesmo sob condições extraordinárias deve ser entendida como uma interpretação teológica do conjunto da passagem de Apocalipse 20, e não como uma afirmação isolada do texto.

CONCLUSÃO

O Milênio possui uma relação significativa com as promessas e os propósitos de Deus revelados nas Escrituras.

Dentro da interpretação pré-milenarista, esse período está relacionado:

  • ao desenvolvimento histórico do cumprimento das promessas feitas a Israel;
  • à manifestação do governo messiânico;
  • à prisão e restrição de Satanás;
  • à manifestação da justiça divina na terra;
  • e ao desenrolar dos acontecimentos que conduzirão à consumação final.

O estudo das alianças demonstra que o Milênio não deve ser analisado como um acontecimento isolado, mas dentro do desenvolvimento das promessas de Deus ao longo da revelação bíblica.

Ao mesmo tempo, Apocalipse 20 mostra que a prisão de Satanás constitui uma característica específica desse período e estabelece uma relação direta entre os mil anos e a restrição de sua atuação.

Na próxima parte, o foco será colocado sobre o personagem central desse Reino:

A RELAÇÃO DE CRISTO COM O MILÊNIO.

FONTE: Manual de Escatologia
AUTOR: J. Dwight Pentecost
EDITORA: Vida