O REINO ETERNO - I

A PREPARAÇÃO PARA O ESTADO ETERNO

INTRODUÇÃO

Continuamos o nosso estudo sobre o Reino Eterno. Entendemos como Reino Eterno aquele que se manifestará em sua plenitude com os novos céus e a nova terra.

No artigo anterior, iniciamos o estudo sobre a preparação desse Reino. Agora continuaremos tratando dessa preparação, concentrando nossa atenção na purificação da criação.

A CRIAÇÃO PURIFICADA

Uma maldição foi colocada por Deus sobre a terra por ocasião do pecado de Adão:

“Maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos...”
(Gênesis 3.17-18)

O próprio Deus, porém, removerá definitivamente os efeitos dessa maldição antes da manifestação plena do Reino Eterno. O apóstolo Pedro, em sua segunda epístola, no capítulo 3, versículos 10-13, descreve esse acontecimento.

Outros textos também apontam para a passagem da presente ordem criada:

“Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão.”
(Mateus 24.35)

“Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, e os céus são obra das tuas mãos; eles perecerão; tu, porém, permaneces; sim, todos eles envelhecerão qual veste.”
(Hebreus 1.10-12)

“Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles.”
(Apocalipse 20.11)

UMA INTERPRETAÇÃO SOBRE A PURIFICAÇÃO ANTERIOR AO MILÊNIO

Alguns intérpretes entendem que essa purificação acontecerá antes do Milênio. Essa posição compreende que o acontecimento ocorrerá no início do Reino Milenar, removendo a maldição e preparando a terra para as condições extraordinárias descritas nas profecias do Reino Messiânico.

Essa interpretação é sustentada principalmente pelos seguintes argumentos:

1 – O DIA DO SENHOR

Entende-se que o “Dia do Senhor”, mencionado em 2 Pedro 3.10, corresponde ao período de juízo que abrange os acontecimentos escatológicos que conduzem ao estabelecimento do Reino Milenar.

Assim, a passagem dos céus e da terra descrita por Pedro seria entendida como um acontecimento relacionado ao início do Milênio.

2 – O FOGO COMO EXPRESSÃO DO JUÍZO DIVINO

Outro argumento está relacionado ao fato de que o fogo é utilizado nas Escrituras como uma expressão da intervenção e do juízo divino.

Isaías 66.15-17, Ezequiel 38.18-23, Joel 2.11 e 2 Tessalonicenses 1.7-10 apresentam imagens relacionadas ao fogo e ao juízo de Deus.

Como Pedro também descreve os céus e a terra sendo atingidos pelo fogo, sustenta-se que esse acontecimento poderia estar relacionado ao juízo da Segunda Vinda de Cristo.

3 – A PROMESSA DE NOVOS CÉUS E NOVA TERRA

Outro argumento encontra-se em Isaías 65.17:

“Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória delas.”

Como o contexto de Isaías 65 também apresenta características relacionadas ao Reino Messiânico, alguns entendem que a promessa de novos céus e nova terra poderia ser colocada no início do Milênio, fazendo com que a purificação da criação acontecesse nesse momento.

UMA OUTRA COMPREENSÃO DA PURIFICAÇÃO

Esses argumentos, porém, podem ser analisados de outra maneira dentro da perspectiva pré-milenista.

1 – O DIA DO SENHOR NÃO PRECISA ESTAR LIMITADO AO INÍCIO DO MILÊNIO

Já tratamos anteriormente sobre o tema do Dia do Senhor. A expressão pode ser compreendida como abrangendo o período dos juízos escatológicos que culminam na consumação do propósito de Deus.

Portanto, o fato de Pedro situar a passagem dos céus e da terra no “Dia do Senhor” não exige que esse acontecimento ocorra imediatamente antes do Milênio.

Pedro afirma:

“Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas.”
(2 Pedro 3.10)

Pedro não declara que o Dia do Senhor começa com a destruição da terra atual. Ele afirma que esse acontecimento ocorrerá nesse período.

2 – O FOGO PODE SER ENTENDIDO COMO MEIO DE JUÍZO

O fogo pode ser utilizado nas Escrituras como linguagem associada à manifestação do juízo divino, sem que isso signifique necessariamente que todas as passagens estejam descrevendo o mesmo acontecimento.

Assim, o fato de Pedro utilizar a imagem do fogo não exige que a purificação da criação seja identificada necessariamente com o juízo da Segunda Vinda.

Uma vez que esse acontecimento constitui um juízo sobre a criação afetada pela maldição, é possível compreendê-lo como a ação definitiva de Deus sobre a presente ordem criada.

3 – ISAÍAS 65 PODE APRESENTAR A REALIDADE FUTURA EM PERSPECTIVA PROFÉTICA

Isaías 65.17 apresenta a promessa de novos céus e nova terra. Entretanto, a profecia também descreve características relacionadas à restauração futura de Jerusalém e às condições do Reino Messiânico.

Dentro da perspectiva pré-milenista, é possível compreender que Isaías apresenta a realidade futura de maneira abrangente, contemplando tanto a restauração messiânica quanto sua consumação no Estado Eterno.

Dessa forma, a referência aos novos céus e à nova terra não precisa significar que sua consumação aconteça no começo do Milênio. A realidade do Estado Eterno pode ser apresentada antecipadamente na profecia, tendo seu cumprimento pleno após a consumação de todas as coisas.

2 PEDRO 3 E O DIA DO JUÍZO

Pedro ainda apresenta outro elemento importante para a compreensão desse acontecimento:

“Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma palavra, têm sido entesourados para fogo, estando reservados para o Dia do Juízo e destruição dos homens ímpios.”
(2 Pedro 3.7)

Podemos perceber que Pedro relaciona a dissolução da presente ordem criada ao Dia do Juízo e à destruição dos homens ímpios.

Essa informação é importante porque, dentro da sequência apresentada em Apocalipse, o julgamento final dos ímpios é descrito depois do Milênio.

A RELAÇÃO COM O GRANDE TRONO BRANCO

Apocalipse 20.11-15 descreve o julgamento diante do Grande Trono Branco, depois dos mil anos e da rebelião final.

João declara:

“Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles.”
(Apocalipse 20.11)

Existe uma relação significativa entre essa declaração e aquilo que Pedro afirma em sua segunda epístola.

Pedro declara que os céus e a terra atualmente existentes estão “entesourados para fogo”, estando reservados para o Dia do Juízo. João, por sua vez, depois de apresentar o Milênio e a rebelião final, descreve a fuga da terra e do céu diante da presença daquele que está assentado no Grande Trono Branco.

Se essas passagens estão descrevendo a mesma etapa da consumação, não existe necessariamente uma contradição entre elas.

Pedro enfatiza o meio pelo qual a presente ordem será atingida, utilizando a linguagem do fogo. João, por sua vez, enfatiza a passagem da antiga ordem diante da presença de Deus, sem especificar o meio pelo qual isso ocorrerá.

Logo depois, João apresenta a nova criação:

“Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.”
(Apocalipse 21.1)

A sequência é significativa: depois do julgamento final, João contempla os novos céus e a nova terra.

A PURIFICAÇÃO NO FINAL DO MILÊNIO

Diante desse conjunto de textos, podemos compreender, dentro da perspectiva pré-milenista, que a purificação definitiva da criação ocorre no final do Milênio, depois da rebelião final contra a autoridade de Deus e em conexão com o julgamento do Grande Trono Branco.

O Milênio não deve ser confundido com o Estado Eterno. Embora seja um período de extraordinária restauração e de governo messiânico, ele ainda pertence à história da presente criação.

Ao final dos mil anos, Satanás será solto e promoverá uma última rebelião:

“Quando, porém, se completarem os mil anos, Satanás será solto da sua prisão e sairá a seduzir as nações...”
(Apocalipse 20.7-8)

Depois dessa rebelião, ocorre o julgamento final. É nesse contexto que Apocalipse apresenta a passagem da terra e do céu e, imediatamente depois, a visão dos novos céus e da nova terra.

Assim, a purificação da criação pode ser compreendida como uma ação de Deus no encerramento da ordem presente, removendo definitivamente os efeitos da maldição e preparando a manifestação plena do Estado Eterno.

CONCLUSÃO

A criação atual foi afetada pelo pecado e permanece sujeita às consequências da queda. As Escrituras, porém, apontam para uma intervenção definitiva de Deus sobre essa ordem criada.

2 Pedro 3 descreve os céus e a terra atualmente existentes como reservados para o fogo no Dia do Juízo, enquanto Apocalipse 20 apresenta a passagem da antiga ordem no contexto do julgamento final.

Dentro da perspectiva pré-milenista, isso permite compreender que a purificação definitiva da criação não precisa ser colocada no início do Milênio, mas pode ser situada em seu encerramento, depois da rebelião final e em conexão com o julgamento do Grande Trono Branco.

Depois disso, João apresenta a realidade que constitui o objetivo final dessa preparação:

“Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram.”
(Apocalipse 21.1)

O Estado Eterno, portanto, não será simplesmente uma continuidade indefinida das condições do Milênio. Ele representará a consumação do propósito de Deus para a criação, quando a antiga ordem dará lugar à nova criação, na qual habitará definitivamente a justiça.

Continuaremos tratando sobre a preparação do Reino Eterno no próximo artigo, abordando o Julgamento dos Pecadores.


FONTE: Manual de Escatologia

AUTOR: John D. Pentecost

EDITORA: Vida

VEJA TAMBÉM: ESCATOLOGIA/ESTADO ETERNO