O REINO ETERNO - III

O DESTINO DOS ÍMPIOS

Depois de tratar da preparação para o Estado Eterno e do julgamento dos pecadores diante do Grande Trono Branco, chegamos agora ao destino final dos ímpios. As Escrituras apresentam esse destino como uma realidade de juízo definitivo, distinta da condição temporária dos mortos antes da ressurreição e do julgamento final.

A Bíblia utiliza diferentes expressões para descrever essa realidade, destacando a separação definitiva de Deus, o juízo e a condenação. Entre essas expressões está o lago de fogo, apresentado no Apocalipse como o destino final daqueles que permanecem em rebelião contra Deus.

I — A RETRIBUIÇÃO DOS ÍMPIOS

O destino final dos ímpios é apresentado nas Escrituras como o lago de fogo. Essa expressão aparece especialmente no livro do Apocalipse:

“E a besta foi presa, e com ela o falso profeta, que, diante dela, fizera os sinais com que enganou os que receberam o sinal da besta e adoraram a sua imagem. Estes dois foram lançados vivos no ardente lago de fogo e enxofre.” (Apocalipse 19.20)

Posteriormente, depois do período do Reino Milenar, Satanás também será lançado no lago de fogo:

“E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre.” (Apocalipse 20.10)

Após o julgamento diante do Grande Trono Branco, a morte e o Hades serão lançados no lago de fogo:

“E a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo.” (Apocalipse 20.14)

O texto acrescenta:

“E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo.” (Apocalipse 20.15)

Portanto, o lago de fogo está diretamente relacionado ao juízo final e à segunda morte. Não se trata simplesmente de uma descrição da condição intermediária dos mortos, mas da realidade final que sucede o julgamento.

O próprio Jesus também utilizou expressões como “fogo eterno” e “fogo inextinguível” ao falar do juízo:

“Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.” (Mateus 25.41)

Em Marcos 9, Jesus fala repetidamente do fogo que não se apaga (Marcos 9.43-48), ressaltando a seriedade e a natureza definitiva do juízo.

Essas expressões não devem ser tratadas isoladamente, mas compreendidas dentro do conjunto da revelação bíblica. A linguagem utilizada pelas Escrituras comunica a realidade do juízo final e seu caráter definitivo.

O Novo Testamento também utiliza outras expressões para descrever o destino dos ímpios, como “fogo eterno” (Mateus 25.41), “fogo inextinguível” (Marcos 9.43), “fornalha de fogo” (Mateus 13.42), “trevas exteriores” (Mateus 8.12) e “fumaça do seu tormento” (Apocalipse 14.11).

Essas expressões possuem diferentes formas de linguagem, algumas delas claramente figurativas ou imagéticas. Entretanto, o uso de linguagem figurada não significa que a realidade descrita seja inexistente. A linguagem utilizada procura comunicar uma realidade de juízo, separação e condenação definitiva.

É importante, portanto, não transformar cada expressão em uma descrição física isolada do destino final, mas observar o conjunto da revelação bíblica. O ponto central é que o juízo dos ímpios culmina em uma condenação definitiva, apresentada de modo especial no Apocalipse como o lago de fogo, a segunda morte.

II — OS TERMOS BÍBLICOS RELACIONADOS AO DESTINO DOS MORTOS

Para compreender melhor o ensino bíblico sobre o destino dos ímpios, é necessário distinguir alguns termos empregados pelas Escrituras em relação à morte, ao estado intermediário e ao juízo final.

Entre os principais termos estão Sheol, Hades, Tártaro e Geena. Eles não devem ser tratados como sinônimos absolutos, pois aparecem em contextos diferentes e possuem funções distintas na revelação bíblica.

1. SHEOL

O termo hebraico Sheol é utilizado no Antigo Testamento para se referir ao domínio ou condição dos mortos. Dependendo do contexto, pode estar relacionado ao túmulo, à morte ou ao domínio dos mortos.

O termo ocorre aproximadamente 65 vezes no texto hebraico do Antigo Testamento e aparece traduzido de diferentes maneiras nas versões bíblicas, especialmente por termos como sepultura, morte ou Sheol.

Um aspecto importante é que o Antigo Testamento apresenta o Sheol como estando sob a soberania de Deus:

“Porque um fogo se acendeu na minha ira, e arderá até ao mais profundo do Sheol...” (Deuteronômio 32.22)

Da mesma forma, Jó declara:

“O Sheol está nu perante ele, e não há cobertura para o Abadom.” (Jó 26.6)

Alguns textos utilizam linguagem poética e personificada ao falar do Sheol. Isaías 14.9, por exemplo, descreve o Sheol recebendo o rei da Babilônia, utilizando uma linguagem poética para representar a realidade da morte e sua humilhação.

Também encontramos no Antigo Testamento a esperança de que Deus não abandonaria definitivamente os seus à morte:

“Pois não deixarás a minha alma no Sheol, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção.” (Salmo 16.10)

Esse texto é posteriormente aplicado por Pedro à ressurreição de Cristo em Atos 2.27-31.

Assim, o Sheol não deve ser definido simplesmente como “inferno” no sentido teológico posterior da expressão. O termo possui um campo de significado mais amplo e deve ser interpretado de acordo com o contexto de cada passagem.

O Antigo Testamento também apresenta a esperança da ressurreição:

“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno.” (Daniel 12.2)

Portanto, a revelação veterotestamentária aponta para uma realidade além da morte, na qual ocorrerá a ressurreição e o julgamento, mas a compreensão detalhada dessas realidades será ampliada progressivamente no Novo Testamento.

2. HADES

No Novo Testamento, o termo Hades corresponde em grande medida ao conceito veterotestamentário de Sheol, sendo empregado em diferentes contextos para falar do domínio ou condição dos mortos.

Um exemplo importante encontra-se na parábola ou narrativa do rico e Lázaro:

“E no Hades, ergueu os olhos, estando em tormentos...” (Lucas 16.23)

O texto apresenta o rico em situação de tormento, enquanto Lázaro encontra-se em posição distinta. A passagem, portanto, deve ser considerada com atenção antes de se estabelecer uma definição simplificada do Hades.

O Hades também aparece claramente como uma realidade temporária, pois o Apocalipse afirma:

“E a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo.” (Apocalipse 20.14)

Isso demonstra que o Hades não é apresentado como o destino final. Ele será abolido juntamente com a morte, sendo lançado no lago de fogo no contexto do julgamento final.

Alguns sistemas teológicos, especialmente dentro de determinadas interpretações dispensacionalistas, entendem que houve uma distinção entre o destino dos justos e dos ímpios no estado intermediário, especialmente após a morte e ressurreição de Cristo. Essa interpretação procura relacionar diferentes textos do Novo Testamento e a compreensão de Lucas 16.

Entretanto, essas construções devem ser distinguidas daquilo que o texto bíblico afirma diretamente. A revelação central é que a morte e o Hades não constituem o estado final e que o destino definitivo dos ímpios somente se manifesta após a ressurreição e o julgamento diante do Grande Trono Branco.

3. TÁRTARO

O termo Tártaro aparece especificamente em 2 Pedro 2.4, em referência aos anjos que pecaram:

“Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no Tártaro, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo...” (2 Pedro 2.4)

O texto apresenta o Tártaro como um lugar ou condição de confinamento dos anjos que pecaram, enquanto aguardam o juízo. Judas 6 apresenta ideia semelhante ao falar dos anjos que abandonaram sua própria habitação e foram reservados para o juízo do grande Dia.

Portanto, o Tártaro não deve ser confundido com Sheol, Hades ou Geena, nem apresentado como o destino final desses seres. O texto de 2 Pedro destaca justamente a condição de confinamento enquanto aguardam o juízo.

O destino final do diabo, por exemplo, é apresentado posteriormente em Apocalipse 20.10 como o lago de fogo e enxofre.

4. GEENA

Outro termo importante é Geena, empregado diversas vezes no ensino de Jesus e também em Tiago 3.6.

A palavra está relacionada ao vale de Hinom, localizado próximo a Jerusalém, que passou a adquirir forte significado associado ao juízo divino por causa das práticas idólatras realizadas naquele local no período do Antigo Testamento.

No ensino de Jesus, Geena aparece associada ao juízo final:

“E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.” (Mateus 10.28)

O termo utilizado nesse texto é Geena. Jesus também utiliza essa palavra em Mateus 5.22,29,30; 18.9 e 23.15,33, além de Marcos 9.43,45,47 e Lucas 12.5.

Isso demonstra que Geena ocupa lugar importante na linguagem de Jesus sobre o juízo. Seu significado ultrapassa a simples referência geográfica ao vale de Hinom e passa a designar, no contexto da pregação de Jesus, a realidade do juízo divino.

Mateus 25.41 também apresenta o fogo eterno como realidade preparada para o diabo e seus anjos. O contexto dessa passagem está relacionado ao julgamento e à separação definitiva.

Portanto, ao analisar os termos Sheol, Hades, Tártaro e Geena, é necessário evitar a ideia de que todos significam exatamente a mesma coisa. As Escrituras utilizam diferentes palavras para tratar da morte, do domínio dos mortos, do confinamento de seres espirituais e do juízo final.

Essa distinção ajuda a compreender melhor a sequência da revelação bíblica: há uma realidade relacionada à morte e ao estado intermediário, há a ressurreição, há o julgamento e, finalmente, há o destino definitivo apresentado no lago de fogo.

CONCLUSÃO

As Escrituras apresentam o destino dos ímpios como uma realidade de juízo definitivo. Depois da ressurreição e do julgamento diante do Grande Trono Branco, aqueles que não foram achados escritos no livro da vida serão lançados no lago de fogo, identificado como a segunda morte.

Ao mesmo tempo, a Bíblia utiliza diferentes termos para descrever as realidades relacionadas à morte e ao juízo. Sheol e Hades estão relacionados ao domínio ou condição dos mortos; Tártaro aparece em referência ao confinamento de anjos que pecaram; e Geena é empregada especialmente no ensino de Jesus em relação ao juízo.

A compreensão desses termos deve respeitar seus contextos e a progressividade da revelação bíblica, evitando atribuir a uma palavra todo o significado desenvolvido posteriormente pela teologia.

O ponto culminante da revelação, entretanto, é claro: o juízo final resultará na condenação definitiva dos ímpios, enquanto a morte e o Hades serão definitivamente removidos. A história da redenção avançará então para a realidade descrita nas Escrituras como novos céus e nova terra.

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FONTE: Manual de Escatologia — John D. Pentecost — Editora Vida.

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