O REINO ETERNO - V

A NOVA JERUSALÉM, A CIDADE CELESTIAL

INTRODUÇÃO

Existem algumas passagens das Escrituras que despertam grande divergência de interpretação entre os pré-milenistas, especialmente entre os dispensacionalistas, como Apocalipse 21.9–22.5. Alguns entendem essa passagem como uma descrição mais detalhada do Estado Eterno; outros a interpretam como uma referência à relação da Igreja com Cristo; outros a relacionam ao Reino Milenar; e há ainda aqueles que entendem a Nova Jerusalém em relação a Israel e às promessas feitas por Deus.

Também existem diferentes entendimentos quanto à própria natureza da cidade apresentada na visão. Alguns a compreendem como uma cidade real, enquanto outros enfatizam seu caráter simbólico. Dessa forma, encontramos diferentes interpretações para uma mesma passagem das Escrituras.

Para compreender corretamente essa passagem, é necessário examiná-la à luz do contexto de Apocalipse 20–22 e de toda a revelação bíblica, procurando determinar onde a visão da Nova Jerusalém se encaixa no desenvolvimento do plano profético de Deus.

ONDE ESSA PASSAGEM SE ENCAIXA NO PLANO PROFÉTICO

Uma das principais questões interpretativas é determinar se Apocalipse 21.9–22.5 continua descrevendo o Estado Eterno apresentado nos versículos 1–8 ou se João, depois de apresentar a consumação final, retorna ao período do Reino Milenar para fornecer uma descrição mais detalhada da Nova Jerusalém.

Alguns intérpretes pré-milenistas, entre eles Darby, Gaebelein, Grant, Ironside, Jennings, Kelly, Pettingill, Seiss e Scott, entendem que, depois de descrever o Estado Eterno em Apocalipse 21.1–8, João faz uma espécie de retrospectiva, voltando ao período do Milênio para apresentar maiores detalhes relacionados à Nova Jerusalém.

Essa interpretação é sustentada por alguns argumentos principais.

1. O uso de retrospectivas no livro de Apocalipse

Um dos argumentos apresentados é que o livro de Apocalipse utiliza, em determinados momentos, o recurso da retrospectiva, apresentando novamente acontecimentos já mencionados para acrescentar detalhes ou explicar aspectos que não haviam sido desenvolvidos anteriormente.

Um exemplo frequentemente utilizado encontra-se em Apocalipse 14 e 17–18. Em Apocalipse 14, a queda da Babilônia aparece dentro de uma sequência de acontecimentos relacionados ao desenvolvimento do juízo de Deus. Posteriormente, em Apocalipse 17–18, João volta a tratar da Babilônia, apresentando maiores detalhes sobre sua relação com a besta e com os reis da terra.

Esse procedimento demonstra que o livro pode apresentar uma visão geral e, posteriormente, retornar a determinado acontecimento para ampliá-lo ou explicá-lo.

Aplicando esse princípio a Apocalipse 21, alguns entendem que os versículos 1–8 apresentam o Estado Eterno de forma geral, enquanto os versículos 9 em diante retornariam a uma etapa anterior, especialmente ao período do Reino Milenar, para apresentar detalhes sobre a Nova Jerusalém.

Entretanto, esse argumento não resolve sozinho a questão. O fato de João utilizar retrospectivas em outras partes do livro não significa necessariamente que Apocalipse 21.9 também seja uma retrospectiva. É necessário demonstrar, a partir do próprio contexto, que essa mudança de perspectiva realmente ocorre nessa passagem.

Existe ainda uma diferença importante entre os exemplos utilizados para sustentar a retrospectiva. Em Apocalipse 17–18, a retomada da Babilônia ocorre dentro de uma sequência relativamente próxima à sua introdução e desenvolve acontecimentos que já haviam sido apresentados anteriormente. Em Apocalipse 21.9, porém, a interpretação proposta exigiria que, depois da apresentação do Estado Eterno, a narrativa retornasse ao período do Milênio.

Portanto, embora o recurso da retrospectiva seja claramente encontrado no livro de Apocalipse, sua existência não constitui, por si só, uma prova de que Apocalipse 21.9–22.5 seja uma recapitulação do Milênio.

2. O ministério dos anjos das sete taças

Outro argumento utilizado para relacionar Apocalipse 21.9–22.5 ao Reino Milenar está relacionado ao ministério dos anjos que possuíam as sete taças.

Apocalipse 17.1 afirma que um dos sete anjos que tinham as sete taças veio mostrar a João o julgamento da grande prostituta. Em Apocalipse 21.9, um dos sete anjos que tinham as sete taças volta a aparecer e diz a João: “Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro”.

A correspondência entre as duas passagens é evidente. Em ambas, um dos sete anjos das taças conduz João para mostrar-lhe uma realidade relacionada a uma figura feminina apresentada de maneira contrastante: de um lado, Babilônia; de outro, a Nova Jerusalém associada à noiva do Cordeiro.

Alguns intérpretes entendem que essa correspondência indica que, assim como Apocalipse 17–18 apresenta uma retrospectiva relacionada à Babilônia, Apocalipse 21.9 também poderia representar uma retomada de acontecimentos anteriores para apresentar detalhes sobre a Nova Jerusalém durante o Milênio.

Entretanto, novamente, a semelhança entre os dois relatos não é suficiente para estabelecer a mesma estrutura cronológica. O ministério do anjo demonstra uma relação literária entre as passagens, mas não determina necessariamente que os acontecimentos descritos em Apocalipse 21.9–22.5 pertençam ao período milenar.

Além disso, se essa passagem fosse necessariamente uma retrospectiva do Milênio, seria preciso explicar por que a narrativa, depois de apresentar o Estado Eterno em Apocalipse 21.1–8, retornaria ao período milenar e depois avançaria novamente para a consumação. Portanto, a interpretação deve considerar não apenas a existência de uma possível retrospectiva, mas também sua relação com a sequência apresentada nos capítulos 20 e 21.

3. Os nomes e títulos utilizados na passagem

Outro argumento apresentado diz respeito aos nomes e títulos utilizados na descrição da Nova Jerusalém. Alguns observam que, a partir de Apocalipse 21.9, aparecem expressões como “Cordeiro” e referências ao “Senhor Deus Todo-Poderoso”, enquanto Apocalipse 21.1–8 apresenta a realidade do Estado Eterno de maneira mais concentrada na presença de Deus.

Entretanto, esses títulos não podem ser utilizados como marcadores exclusivos de uma determinada dispensação ou período profético.

O título “Cordeiro”, aplicado a Cristo, aparece em diferentes momentos da revelação bíblica. João Batista utilizou essa designação em João 1.29, antes da formação da Igreja; o Novo Testamento também apresenta Cristo como o Cordeiro em diferentes contextos relacionados à redenção e à consumação dos propósitos de Deus. Em Apocalipse, o Cordeiro aparece em diversos contextos proféticos.

Portanto, o título “Cordeiro” não pode ser limitado ao período da Lei, ao período da Igreja, à Grande Tribulação ou ao Milênio. Ele está relacionado à identidade e à obra redentora de Cristo e continua sendo utilizado na revelação da realidade futura.

O mesmo princípio pode ser aplicado ao título “Todo-Poderoso”. Esse nome é utilizado amplamente nas Escrituras, inclusive no livro de Jó, e não está restrito a uma determinada dispensação ou a um determinado povo.

Assim, a presença desses títulos em Apocalipse 21.9–22.5 não constitui, por si mesma, uma prova de que a passagem descreva o Milênio. Eles devem ser interpretados dentro do contexto específico em que aparecem.

A QUESTÃO DA SEQUÊNCIA

A questão fundamental, portanto, permanece: Apocalipse 21.9–22.5 descreve acontecimentos posteriores ao Estado Eterno ou apresenta uma ampliação daquilo que já foi mostrado em Apocalipse 21.1–8?

O texto permite reconhecer claramente a mudança de apresentação. Em Apocalipse 21.1–8, João contempla os novos céus e a nova terra, a Nova Jerusalém descendo do céu e Deus habitando com os homens. A partir do versículo 9, um anjo conduz João novamente para mostrar-lhe a noiva, a esposa do Cordeiro, identificada com a grande cidade, a santa Jerusalém.

Essa mudança de apresentação pode ser compreendida como uma ampliação da visão da realidade eterna já introduzida nos versículos anteriores. Por outro lado, alguns intérpretes entendem que ela representa uma recapitulação do período milenar.

Por isso, a interpretação dessa passagem exige atenção especial aos detalhes apresentados nos versículos seguintes, observando se suas características correspondem ao Estado Eterno ou se apontam para condições existentes durante o Reino Milenar.

Essa análise será fundamental para compreendermos corretamente a identidade, a natureza e a função da Nova Jerusalém dentro do plano profético revelado nas Escrituras.

CONCLUSÃO

Apocalipse 21.9–22.5 apresenta uma das passagens mais discutidas da escatologia bíblica. A relação dessa visão com o Estado Eterno e com o Reino Milenar tem produzido diferentes interpretações entre os estudiosos pré-milenistas.

Os argumentos relacionados ao uso de retrospectivas, ao ministério dos anjos das sete taças e aos títulos atribuídos a Deus e a Cristo são importantes para o debate, mas nenhum deles, isoladamente, determina a posição cronológica da passagem.

Por isso, é necessário continuar a análise observando cuidadosamente as características da Nova Jerusalém apresentadas na visão, comparando-as com as demais passagens bíblicas que tratam do Reino Milenar, da nova criação e do Estado Eterno.

No próximo artigo, examinaremos mais detalhadamente a Nova Jerusalém, sua descrição, suas características e seu significado dentro da consumação do plano de Deus.

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FONTE: Manual de Escatologia — J. Dwight Pentecost — Editora Vida.

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