O REINO ETERNO - VII

Apocalipse 21.9–22.7 Refere-se ao Estado Eterno?

Uma análise dos argumentos favoráveis à interpretação da Nova Jerusalém como realidade exclusivamente eterna e das respostas apresentadas a essa posição.

Introdução

A interpretação de Apocalipse 21.9–22.7 levanta uma questão importante no debate escatológico: a descrição da Nova Jerusalém refere-se exclusivamente ao estado eterno ou pode estar relacionada também ao período milenar?

Entre os intérpretes que defendem que Apocalipse 21.1–22.7 descreve o estado eterno estão Robert Govett, Clarence Larkin, William R. Newell, Lawrence Ottman e outros. Essa interpretação se apoia em diferentes características da cidade apresentada na visão de João, como sua relação com o novo céu e a nova terra, a ausência de templo e de noite, a remoção da maldição e a declaração de que a morte já não existirá.

Por outro lado, há argumentos que procuram demonstrar que determinadas características da Nova Jerusalém não exigem, necessariamente, que toda a descrição seja situada exclusivamente na eternidade. Segundo essa perspectiva, alguns elementos da passagem poderiam ser compreendidos em relação ao Milênio, considerando-se a distinção entre a Jerusalém celestial e a Jerusalém terrena.

Para avaliar essa questão, examinaremos os principais argumentos apresentados em favor da interpretação exclusivamente eterna e as respostas que procuram demonstrar que essa conclusão não é obrigatória.

1. O emprego do adjetivo “novo” em Apocalipse 21.1–2

O primeiro argumento está relacionado ao emprego do adjetivo “novo” em Apocalipse 21.1–2. Nesses versículos, João contempla um novo céu, uma nova terra e a Nova Jerusalém, a cidade santa que desce do céu, da parte de Deus.

Os defensores da interpretação que situa toda a passagem no estado eterno argumentam que a Nova Jerusalém mencionada no versículo 2 é a mesma cidade apresentada no versículo 10, denominada “a santa Jerusalém”. Como a cidade do versículo 2 aparece associada ao novo céu e à nova terra, entendidos como realidades próprias da consumação final, concluem que a cidade descrita no versículo 10 também deve ser situada nesse mesmo contexto.

Entretanto, essa conclusão é contestada por aqueles que admitem uma relação entre a Jerusalém celestial e o período milenar. Segundo essa resposta, em Apocalipse 21.10, João contempla a cidade descendo do céu, enquanto Apocalipse 21.2 apresenta a cidade santa em sua relação com o novo céu e a nova terra.

Nessa perspectiva, as duas descrições podem estar relacionadas à mesma cidade, sem que isso obrigue o intérprete a considerar idênticos todos os momentos ou estágios contemplados na visão.

É importante observar, porém, que o texto bíblico não afirma explicitamente que a cidade permanece suspensa acima da terra em Apocalipse 21.10. Essa é uma interpretação proposta para explicar a relação entre as duas descrições.

Assim, o emprego do adjetivo “novo” e a identificação das duas referências à cidade constituem elementos importantes para a discussão. É necessário determinar se essa relação exige que ambas as descrições se refiram exclusivamente ao estado eterno.

2. A posição da cidade em Apocalipse 21.10

O segundo argumento diz respeito à posição da Nova Jerusalém na visão de Apocalipse 21.10.

Os intérpretes que situam essa descrição exclusivamente na eternidade argumentam que a cidade é apresentada descendo do céu e que sua posição na visão não corresponde ao cenário esperado para o período milenar.

Essa interpretação considera que, na segunda vinda de Cristo, seus pés estarão sobre o monte das Oliveiras, conforme Zacarias 14.4. Cristo exercerá seu governo messiânico, e a Jerusalém terrena ocupará um lugar central nesse reino. Por essa razão, argumenta-se que a cidade celestial apresentada como habitação do Cordeiro não corresponde ao cenário do Milênio.

Em resposta, pode-se argumentar que o retorno de Cristo à terra e seu governo sobre o reino messiânico não exigem, necessariamente, que sua residência esteja limitada à Jerusalém terrena.

De acordo com essa interpretação, Cristo poderá exercer seu governo sobre o reino davídico, tendo a Jerusalém terrena como centro de sua autoridade, enquanto a Jerusalém celestial é compreendida como a habitação da Noiva.

Essa proposta procura distinguir o exercício da autoridade real de Cristo do lugar associado à habitação da Noiva. Contudo, trata-se de uma interpretação que precisa ser avaliada à luz do conjunto das passagens bíblicas relacionadas ao reino messiânico.

Portanto, a posição da cidade em Apocalipse 21.10 é um elemento relevante para o debate, mas a conclusão depende também de como se compreende a relação entre a Jerusalém celestial, a Jerusalém terrena e o governo de Cristo.

3. As características da cidade são próprias do estado eterno ou podem ser relacionadas ao Milênio?

O terceiro argumento reúne diversas características da Nova Jerusalém que, segundo os defensores da interpretação exclusivamente eterna, demonstrariam que a passagem não pode descrever o período milenar.

Entre essas características, destacam-se a glória de Deus, a ausência de templo, a inexistência de noite, a presença do trono de Deus e do Cordeiro, a remoção da maldição, a exclusão dos impuros e a declaração de que não haverá mais morte.

3.1. A glória de Deus

A Nova Jerusalém possui a glória de Deus (Ap 21.11,23). Os defensores da interpretação eterna argumentam que essa glória aponta para uma condição definitiva, na qual os redimidos habitarão na presença de Deus.

Para sustentar essa ideia, pode-se recordar a experiência de Paulo no caminho de Damasco (At 9.3–4), quando foi confrontado pela manifestação celestial de Cristo. Entretanto, esse episódio, por si só, não demonstra que a glória divina não possa manifestar-se durante o Milênio.

A resposta a esse argumento sustenta que a cidade celestial poderia ser habitada exclusivamente pelos redimidos, enquanto pessoas mortais permaneceriam na terra durante o reino milenar. Essa distinção, contudo, precisa ser fundamentada no conjunto do ensino bíblico.

3.2. A ausência de templo

Apocalipse 21.22 declara que João não viu templo na cidade, pois o Senhor Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro são o seu templo.

Os defensores da interpretação eterna relacionam essa declaração às profecias de Ezequiel 40–48, nas quais é apresentada uma visão de um templo. Se essas profecias descrevem um templo no período milenar, argumentam, a ausência de templo na Nova Jerusalém indicaria que a visão de Apocalipse se refere a um período posterior ao Milênio.

A resposta distingue a Jerusalém terrena da Jerusalém celestial. O templo descrito em Ezequiel estaria relacionado à Jerusalém terrena, enquanto a cidade celestial não necessitaria de um templo separado, porque o próprio Deus e o Cordeiro constituem seu santuário.

Assim, a ausência de templo na Nova Jerusalém não exclui, necessariamente, sua relação com o período milenar. A conclusão depende, porém, da interpretação adotada para o templo de Ezequiel e de sua relação com as demais profecias bíblicas.

3.3. A ausência de noite

Apocalipse 21.25 afirma que as portas da cidade jamais serão fechadas durante o dia, pois ali não haverá noite.

Os defensores da interpretação eterna observam que o Milênio ainda envolveria condições próprias da existência terrena, incluindo a sucessão entre dia e noite. Isaías 30.26 e 60.19–20 apresenta imagens proféticas relacionadas à luz e à glória de Deus.

A resposta é que a ausência de noite poderia caracterizar a cidade celestial sem exigir a ausência de noite em toda a terra durante o Milênio. Como o Cordeiro é a luz da cidade, a condição da Jerusalém celestial não precisaria ser idêntica à condição da Jerusalém terrena.

Desse modo, a declaração sobre a ausência de noite não resolve isoladamente a questão cronológica. É necessário determinar se João descreve uma condição restrita à cidade ou uma transformação universal que alcança toda a criação.

3.4. O trono de Deus e do Cordeiro

Apocalipse 22.3 declara que o trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade e que seus servos o adorarão.

Para os defensores da interpretação eterna, essa descrição aponta para a consumação final do propósito divino. Entretanto, Mateus 25.31 afirma que o Filho do Homem virá em sua glória e se assentará no trono de sua glória.

A partir dessa passagem, argumenta-se que o trono de Cristo também está relacionado à sua manifestação gloriosa e ao exercício de sua autoridade no contexto do juízo e do reino.

A resposta sustenta que a presença do trono divino não constitui, por si só, uma prova de que a cena pertence exclusivamente ao estado eterno. Para estabelecer a relação cronológica, é necessário considerar o contexto de cada passagem e a natureza do governo descrito.

3.5. A ausência de maldição

Apocalipse 22.3 afirma que nunca mais haverá maldição.

Os defensores da interpretação eterna entendem essa declaração como referência à remoção definitiva dos efeitos da queda. A humanidade e a criação já não estariam sujeitas às consequências do pecado, o que apontaria para a consumação final.

A resposta apresentada distingue a remoção dos efeitos da maldição em determinadas dimensões da criação de sua eliminação definitiva no estado eterno.

Isaías 11 descreve condições de paz e harmonia na criação, incluindo imagens da convivência entre animais que, no presente, são inimigos naturais. Com base nessa profecia, argumenta-se que determinadas consequências da maldição poderiam ser removidas durante o reino messiânico, sem que isso significasse necessariamente que todas as condições da existência mortal tivessem desaparecido.

Essa interpretação procura demonstrar que a expressão “nunca mais haverá maldição” precisa ser examinada em relação ao alcance da promessa e ao contexto da visão. A questão é saber se João descreve uma transformação própria da cidade, uma condição abrangente da criação ou a consumação definitiva de todas as coisas.

3.6. A presença exclusiva dos salvos

Apocalipse 21.27 declara que nada impuro entrará na cidade, nem aqueles que praticam abominação e mentira, mas somente os inscritos no livro da vida do Cordeiro.

Os defensores da interpretação eterna argumentam que essa exclusividade aponta para o estado definitivo dos redimidos. Durante o Milênio, segundo a interpretação pré-milenista aqui considerada, ainda haverá pessoas mortais, e algumas delas poderão permanecer em rebelião contra Deus.

Nesse caso, como a cidade é habitada exclusivamente pelos salvos, conclui-se que ela deve pertencer ao estado eterno.

A resposta consiste em distinguir a população da cidade celestial daquela que habitará a terra durante o Milênio. Segundo essa possibilidade interpretativa, somente os redimidos teriam acesso à cidade, enquanto pessoas mortais poderiam viver na terra sob o governo de Cristo.

Dessa forma, a exclusividade dos habitantes da Nova Jerusalém não provaria, isoladamente, que a cidade só pode ser situada depois do Milênio. Essa conclusão dependeria da relação estabelecida entre a cidade, a terra e as condições de vida existentes em cada período.

3.7. A ausência de morte

Por fim, Apocalipse 21.4 declara que Deus enxugará dos olhos toda lágrima e que já não haverá morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.

Esse é um dos argumentos mais significativos em favor da interpretação de que a passagem descreve o estado eterno. Isaías 65.20, por sua vez, contém uma declaração relacionada à morte no contexto de uma profecia frequentemente discutida em relação ao reino messiânico.

Os defensores da interpretação eterna observam que, se ainda haverá morte durante o Milênio, a declaração de Apocalipse 21.4 parece apontar para um estado posterior, no qual a morte terá sido definitivamente eliminada.

A resposta apresentada procura distinguir a condição da cidade celestial da condição da terra durante o Milênio. Se a Nova Jerusalém e a terra milenar forem compreendidas como realidades distintas, a ausência de morte na cidade não exigiria, necessariamente, que todos os habitantes da terra já estivessem livres da mortalidade.

Entretanto, esse argumento precisa ser avaliado com cuidado, pois Apocalipse 21.4 não se limita a declarar que não haverá morte dentro da cidade: o versículo afirma que a morte já não existirá. Por isso, a questão decisiva é determinar o alcance dessa declaração no contexto da visão e sua relação com a sequência dos acontecimentos descritos por João.

Conclusão

Os argumentos apresentados em favor da interpretação de Apocalipse 21.9–22.7 como uma descrição exclusivamente do estado eterno envolvem diferentes aspectos da visão: a designação da cidade como nova, sua posição em relação à terra, a ausência de templo e de noite, a presença do trono divino, a remoção da maldição, a exclusividade dos redimidos e o fim da morte.

As respostas a esses argumentos procuram demonstrar que algumas dessas características poderiam ser compreendidas em relação à Jerusalém celestial sem que fosse necessário situar toda a descrição exclusivamente depois do Milênio.

Entretanto, demonstrar que determinada característica não exclui uma interpretação milenar não equivale, por si só, a provar que essa interpretação é a correta. É necessário examinar o contexto literário de Apocalipse 21–22, a sequência das visões e a relação entre essas passagens e as demais profecias bíblicas.

Também é importante considerar a declaração de Apocalipse 21.1 sobre o novo céu e a nova terra e a afirmação de Apocalipse 21.4 de que a morte já não existirá. Esses elementos possuem peso significativo na interpretação da passagem e não devem ser tratados isoladamente.

A questão permanece, portanto, vinculada à interpretação do conjunto do texto: João está descrevendo exclusivamente a consumação final ou sua visão permite distinguir aspectos da Jerusalém celestial e do estado eterno que precisam ser considerados separadamente?

Essa análise é fundamental para compreender o lugar de Apocalipse 21.9–22.7 no desenvolvimento da escatologia bíblica. O estudo responsável das profecias exige que cada argumento seja examinado à luz do texto bíblico, respeitando o contexto, as conexões entre as passagens e os limites das conclusões propostas.

Fonte bibliográfica

PENTECOST, J. Dwight. Manual de Escatologia. Editora Vida.

Nota bibliográfica: para completar a referência acadêmica, acrescente a edição, o local e o ano de publicação correspondentes ao exemplar consultado.