ALIANÇA ABRAÂMICA - VIII

O AMILENARISMO E A DESCENDÊNCIA DE ABRAÃO

INTRODUÇÃO

Nos artigos anteriores desta sequência, já tratamos das promessas e dos termos relacionados à Aliança Abraâmica. Neste momento, o objetivo é observar como o amilenarismo interpreta a expressão “descendência de Abraão” dentro dessas promessas.

A questão é importante porque diferentes sistemas escatológicos não interpretam da mesma maneira a relação entre a descendência de Abraão, a comunidade da aliança e o cumprimento das promessas.

Neste artigo, apresentaremos a posição amilenarista a partir da formulação de Pieters e, em seguida, o contraponto apresentado pela interpretação pré-milenarista.

A DEFINIÇÃO AMILENARISTA DA DESCENDÊNCIA DE ABRAÃO

Uma definição da posição amilenarista é apresentada por Pieters ao tratar da expressão “descendência de Abraão” no uso bíblico.

Segundo ele:

“A expressão ‘descendência de Abraão’, no uso bíblico, denota aquela comunidade visível cujos membros se relacionam com Deus por meio da aliança abraâmica e, assim, são herdeiros da sua promessa.”

Pieters prossegue em seu argumento afirmando que Deus não teria feito determinadas promessas simplesmente a uma raça enquanto raça. Para sua interpretação, as promessas estão relacionadas à comunidade pactual, isto é, ao grupo que mantém uma relação de aliança com Deus.

Nessa perspectiva, a questão fundamental não seria simplesmente demonstrar uma descendência física de Abraão, mas identificar aqueles que pertencem à comunidade que participa das promessas da aliança.

Pieters argumenta:

“Deus nunca prometeu nada a raça alguma como raça. Todas as promessas foram para a contínua comunidade pactual, sem considerar seus elementos raciais ou ascendência pessoal dos indivíduos a ela pertencentes.”

A partir dessa compreensão, a expressão “descendência de Abraão” não fica restrita àqueles que possuem uma relação genealógica com o patriarca. A comunidade da aliança assume papel central na identificação dos herdeiros das promessas.

Assim, dentro dessa interpretação, a descendência de Abraão é compreendida principalmente em relação à comunidade da fé e da aliança.

O CONTRAPONTO PRÉ-MILENARISTA

Walvoord apresenta um resumo do argumento de Pieters e expõe o contraponto da interpretação pré-milenarista.

Segundo sua apresentação, a posição amilenarista pode ser resumida nos seguintes pontos:

  1. Deus não teria feito promessas à descendência física de Abraão simplesmente enquanto raça;
  2. as promessas de Abraão seriam destinadas à descendência espiritual ou à “contínua comunidade pactual”;
  3. portanto, a identificação dos herdeiros das promessas dependeria de sua associação com essa comunidade pactual.

A interpretação pré-milenarista contesta essa compreensão e sustenta que não se deve eliminar a dimensão física e histórica da descendência de Abraão presente nas promessas da aliança.

Para essa interpretação, existe uma distinção importante entre a descendência física de Abraão e aqueles que são relacionados a Abraão pela fé. Essa distinção possui consequências para a maneira como as promessas da Aliança Abraâmica são interpretadas no desenvolvimento da escatologia.

Portanto, o contraponto pré-milenarista não consiste simplesmente em negar a existência de uma descendência espiritual. A questão é determinar se a descendência espiritual substitui ou não a referência à descendência física nas promessas feitas por Deus a Abraão.

O MÉTODO DE INTERPRETAÇÃO NA DISCUSSÃO

A divergência entre as posições está diretamente relacionada à maneira como cada sistema interpreta a linguagem das promessas e sua continuidade ao longo da revelação bíblica.

O amilenarismo enfatiza a continuidade da comunidade pactual e entende que a participação nas promessas não deve ser determinada exclusivamente pela descendência física.

A interpretação pré-milenarista, por outro lado, enfatiza que a existência de uma descendência espiritual não elimina necessariamente as referências à descendência física de Abraão e às promessas relacionadas a ela.

Por isso, o método de interpretação é um fator determinante nessa discussão.

Entretanto, a diferença não deve ser reduzida simplesmente à oposição entre uma interpretação “literal” e outra “figurada”. Cada sistema possui uma maneira própria de relacionar os textos, as alianças e o desenvolvimento da revelação.

O ponto central da discussão é como a expressão “descendência de Abraão” deve ser compreendida dentro do conjunto das Escrituras e como essa compreensão influencia a interpretação das promessas da aliança.

A posição amilenarista apresentada por Pieters enfatiza a comunidade pactual. O contraponto pré-milenarista enfatiza a necessidade de preservar também a dimensão física da descendência.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre os diferentes tipos de descendência se torna necessária.

CONCLUSÃO

Neste VIII artigo da sequência sobre a Aliança Abraâmica, observamos que a questão da descendência de Abraão recebe interpretações diferentes dentro dos sistemas escatológicos.

A posição amilenarista apresentada por Pieters entende a descendência de Abraão principalmente em relação à comunidade pactual, considerando como herdeiros das promessas aqueles que pertencem a essa comunidade.

O contraponto pré-milenarista questiona essa compreensão ao sustentar que a dimensão física da descendência de Abraão não deve ser eliminada da interpretação das promessas da aliança.

Assim, a questão não envolve apenas a definição da palavra “descendência”, mas também a maneira como cada sistema compreende a continuidade das promessas da Aliança Abraâmica e a relação entre descendência física e descendência relacionada à fé.

O próximo artigo avançará nessa discussão examinando os tipos de descendência apresentados nas Escrituras, permitindo observar como a própria Bíblia utiliza essa linguagem.

Fonte: Manual de Escatologia

Autor: J. Dwight Pentecost

Editora: Vida

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