OS TIPOS DE DESCENDÊNCIA MENCIONADOS NAS ESCRITURAS
INTRODUÇÃO
A questão da descendência de Abraão é fundamental para a compreensão das promessas da Aliança Abraâmica. Como vimos no artigo anterior, diferentes sistemas escatológicos interpretam de maneiras distintas quem deve ser identificado como descendência de Abraão e como essa identificação se relaciona com as promessas da aliança.
Dentro da interpretação pré-milenarista, é necessário distinguir diferentes sentidos nos quais alguém pode ser considerado descendente de Abraão. Quando essas distinções não são observadas, diferentes aspectos das promessas podem ser confundidos.
A partir dessa compreensão, a interpretação pré-milenarista distingue três sentidos relacionados à descendência de Abraão.
OS TRÊS SENTIDOS DOS DESCENDENTES DE ABRAÃO
Walvoord apresenta essa distinção da seguinte maneira:
“Existem, então, três sentidos diferentes nos quais alguém pode ser filho de Abraão. Primeiro, existe a linhagem natural, ou a descendência natural.”
O primeiro sentido é o da descendência natural. Trata-se da linhagem física que tem sua continuidade histórica em Isaque, Jacó e, posteriormente, nas doze tribos de Israel.
Essa descendência ocupa um lugar específico na história da revelação. Deus estabeleceu uma relação particular com Israel, entregando-lhe a Lei e tratando com esse povo de maneira especial dentro da história da aliança.
Portanto, a descendência natural não deve ser confundida simplesmente com todos aqueles que, em sentido espiritual, são relacionados a Abraão pela fé.
Walvoord apresenta então um segundo sentido:
“Segundo, existe a linhagem espiritual dentro da linhagem natural.”
Nesse caso, trata-se de israelitas que, além de pertencerem à descendência natural, demonstram fé em Deus e participam espiritualmente das bênçãos relacionadas à aliança.
Dentro da interpretação pré-milenarista, essa distinção é importante porque nem todo descendente físico de Abraão é necessariamente apresentado nas Escrituras como alguém que desfruta espiritualmente das bênçãos de Deus.
Assim, pode-se distinguir entre a descendência natural de Abraão e aqueles, dentro dessa descendência natural, que possuem uma relação de fé com Deus.
Walvoord acrescenta ainda um terceiro sentido:
“Terceiro, existe a descendência espiritual de Abraão que não é por natureza israelita.”
Aqui estão os gentios que, pela fé em Cristo, são relacionados espiritualmente a Abraão.
É nesse ponto que Gálatas 3 possui importância fundamental.
Paulo afirma:
“Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão.”
Gálatas 3.7
E acrescenta:
“De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão.”
Gálatas 3.9
A argumentação de Paulo demonstra que existe uma relação espiritual entre Abraão e aqueles que creem, independentemente de sua origem étnica.
Essa verdade alcança também os gentios. Paulo afirma:
“E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa.”
Gálatas 3.29
Portanto, dentro da interpretação apresentada por Walvoord, os gentios podem ser considerados descendentes espirituais de Abraão por estarem em Cristo.
A DISTINÇÃO ENTRE DESCENDÊNCIA FÍSICA E ESPIRITUAL
O reconhecimento de uma descendência espiritual de Abraão entre os gentios não significa, na interpretação pré-milenarista, que todas as promessas feitas à descendência natural tenham sido transferidas para eles.
Essa distinção é fundamental.
Os pré-milenaristas podem concordar com os amilenaristas quanto ao fato de que os crentes gentios são relacionados espiritualmente a Abraão. A divergência surge quando se afirma que essa relação espiritual constitui o cumprimento das promessas feitas à descendência natural de Abraão.
Na interpretação pré-milenarista, a afirmação de Gálatas 3.29 deve ser compreendida dentro de seu próprio contexto. Os gentios que estão em Cristo são realmente descendentes de Abraão em sentido espiritual e são herdeiros da promessa nesse sentido.
Entretanto, isso não significa necessariamente que as promessas relacionadas à identidade nacional, à terra e ao futuro de Israel tenham sido transferidas para a Igreja.
Dessa maneira, a distinção entre descendência natural e descendência espiritual permite que o intérprete reconheça tanto a inclusão dos gentios nas bênçãos relacionadas a Abraão quanto a continuidade das promessas específicas relacionadas a Israel, conforme a interpretação pré-milenarista.
A IMPORTÂNCIA DESSA DISTINÇÃO PARA A ESCATOLOGIA
Essa distinção possui consequências importantes para a interpretação escatológica.
Se a descendência espiritual de Abraão for entendida como substituta da descendência natural em todas as promessas, a interpretação das promessas feitas a Israel será diferente daquela adotada pelo pré-milenarismo.
Por outro lado, se a Escritura permite distinguir entre descendência natural, descendência espiritual dentro de Israel e descendência espiritual entre os gentios, torna-se possível reconhecer diferentes aspectos das promessas sem necessariamente identificar todos os seus destinatários.
É justamente nesse ponto que a interpretação pré-milenarista estabelece sua distinção.
Os gentios crentes são participantes das bênçãos espirituais relacionadas à promessa feita a Abraão, mas isso não significa, necessariamente, que todas as promessas nacionais feitas a Israel tenham sido cumpridas na Igreja.
Essa distinção será importante para compreender o relacionamento entre Igreja, Israel e Aliança Abraâmica.
CONCLUSÃO
As Escrituras utilizam a linguagem relacionada à descendência de Abraão em diferentes contextos. Dentro da interpretação pré-milenarista apresentada por Walvoord, esses usos podem ser distinguidos em três sentidos principais: a descendência natural de Abraão, a descendência espiritual dentro da linhagem natural e a descendência espiritual entre os gentios.
O Novo Testamento deixa claro que aqueles que estão em Cristo são relacionados a Abraão pela fé. Gálatas 3.7 e 3.29 demonstra que os crentes são chamados de filhos e descendentes de Abraão e são apresentados como herdeiros segundo a promessa.
Entretanto, na interpretação pré-milenarista, essa verdade não significa automaticamente que todas as promessas feitas à descendência natural de Abraão tenham sido transferidas para os gentios ou para a Igreja.
A distinção entre descendência física e descendência espiritual torna-se, portanto, fundamental para a interpretação das promessas da Aliança Abraâmica e para a compreensão das diferentes posições escatológicas.
No próximo artigo, examinaremos especificamente a Igreja e sua relação com a Aliança Abraâmica.
Fonte: Manual de Escatologia
Autor: John Dwight Pentecost
Editora: Vida