O ESTADO ETERNO EM APOCALIPSE 21.9 A 22.7
OS HABITANTES DA CIDADE
Para tratar dos habitantes da Nova Jerusalém, examinaremos a tese apresentada por Newell, segundo a qual essa cidade será a morada eterna de Deus — Pai, Filho e Espírito Santo — e estará relacionada aos redimidos que participarão da glória da nova criação.
Newell apresenta alguns argumentos para sustentar que a Nova Jerusalém será a morada eterna de Deus:
“Várias considerações nos levam à conclusão de que a Nova Jerusalém é o lugar de moradia eterna de Deus.
1. Imediatamente vemos o novo céu e a nova terra e a Nova Jerusalém que desce à nova terra (21.1,2); lemos: ‘Eis o tabernáculo de Deus com os homens’ [...] O objetivo no novo céu e da nova terra é realizar isso — que Deus tenha Sua morada eternamente nessa capital da nova criação!
2. Nenhuma outra morada eterna de Deus é vista além dessa da capital da nova criação [...].
3. Essa cidade celestial tem a glória de Deus (21.11,23; 22.5) [...].
4. Ela também tem o trono de Deus e o ‘serviço’ de 22.3, apropriadamente denominado culto sacerdotal, ou adoração espiritual [...].
5. Eles verão a sua face [...] Esse, então, deve ser o lugar da moradia de Deus para sempre.
6. Apenas precisamos lembrar que os habitantes da Nova Jerusalém ‘reinarão pelos séculos dos séculos’ (22.5). Isso não poderia ser escrito sobre ninguém mais, exceto habitantes da capital da nova criação.”
Newell fundamenta sua interpretação principalmente na presença da glória divina, no trono de Deus e do Cordeiro e na declaração de que os seus servos verão a face do Senhor e reinarão pelos séculos dos séculos. Esses elementos o levam a considerar a Nova Jerusalém como a morada permanente de Deus na nova criação.
Apocalipse 21.3 constitui uma passagem central para essa compreensão: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens”. O texto apresenta a comunhão definitiva entre Deus e a humanidade redimida. Já Apocalipse 21.22-23 declara que a cidade não necessita de templo, pois o Senhor Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro são o seu santuário, e que a glória de Deus a ilumina.
Assim, a descrição bíblica coloca a presença divina no centro da esperança futura. A interpretação de Newell vai além ao identificar a Nova Jerusalém como a capital da nova criação e a morada eterna de Deus. Essa conclusão deve ser compreendida à luz do conjunto da passagem e da relação entre a cidade e aqueles que nela estarão.
A NOVA JERUSALÉM E A IGREJA
A Nova Jerusalém não é apresentada somente em relação à presença de Deus. Em Apocalipse 21.9, o anjo promete mostrar a João a noiva, a esposa do Cordeiro, e em seguida lhe mostra a cidade santa, Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus (Ap 21.10).
A relação entre a noiva e a cidade é um dos aspectos importantes dessa visão. A linguagem do texto associa a Nova Jerusalém à esposa do Cordeiro, embora a natureza exata dessa relação seja objeto de diferentes interpretações. Na leitura que seguimos nesta série, a cidade é entendida como uma realidade distinta dos seus habitantes, mas estreitamente relacionada à Igreja glorificada, representada pela figura da noiva.
Essa esperança encontra correspondência em Hebreus 12.22-23:
“Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia e à igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados.”
O texto de Hebreus apresenta a Jerusalém celestial em associação com a assembleia celestial, a Igreja dos primogênitos, os anjos, Deus e os espíritos dos justos aperfeiçoados. Essa descrição evidencia a realidade celestial para a qual o povo de Deus é conduzido por meio de Cristo.
Outro texto relevante encontra-se na promessa de Cristo à igreja de Filadélfia:
“Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome.” (Apocalipse 3.12)
Nessa promessa, o nome da Nova Jerusalém é colocado sobre o vencedor, indicando sua identificação com a cidade de Deus e sua participação permanente na realidade celestial. A promessa reforça a relação entre os redimidos e a Nova Jerusalém, embora não descreva, por si só, todos os detalhes dessa relação.
Portanto, a esperança da Igreja não se limita à libertação do pecado ou à ressurreição. Ela inclui a comunhão eterna com Cristo e a participação na glória que Deus preparou para os seus. Na interpretação aqui considerada, a Nova Jerusalém está intimamente ligada a esse destino glorioso.
A CASA DO PAI E A CIDADE QUE HÁ DE VIR
Não temos dúvidas de que a promessa de habitar com o Senhor ocupa um lugar central na esperança cristã. Em João 14.2-3, Jesus declarou:
“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-la teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também.”
Essa promessa assegura aos discípulos que estarão com Cristo. Entretanto, o texto não identifica expressamente a casa do Pai com a Nova Jerusalém. Essa associação é uma interpretação possível dentro de uma leitura mais ampla das passagens que tratam da habitação celestial e da cidade preparada por Deus.
Hebreus 13.14 também declara:
“Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir.”
O versículo aponta para a esperança de uma cidade futura e permanente. Em conjunto com Hebreus 11.10-16 e 12.22-23, ele contribui para a compreensão da expectativa bíblica por uma pátria superior, preparada pelo próprio Deus.
Essas passagens mostram que a esperança dos redimidos ultrapassa as condições presentes. O destino que Deus lhes preparou está relacionado à sua presença, à comunhão com o Senhor e à permanência na realidade celestial que Ele estabeleceu.
A NOVA JERUSALÉM E OS SANTOS DO ANTIGO TESTAMENTO
Ao considerar os habitantes da Nova Jerusalém, precisamos examinar também as promessas destinadas aos santos que viveram antes da primeira vinda de Cristo. A esperança de uma cidade preparada por Deus não aparece somente no Novo Testamento. Hebreus 11.10 afirma a respeito de Abraão:
“Porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador.”
O contexto de Hebreus 11.8-16 mostra que Abraão e os demais patriarcas viveram como peregrinos, aguardando uma pátria superior, isto é, celestial. O texto afirma que Deus lhes preparou uma cidade. Essa promessa sustenta a compreensão de que a esperança dos santos do Antigo Testamento também estava voltada para uma realidade futura preparada por Deus.
Em Gálatas 4.26, Paulo escreve:
“Mas a Jerusalém lá de cima é livre, a qual é a nossa mãe.”
Ao contrastar a Jerusalém de cima com a Jerusalém associada à escravidão, Paulo emprega uma alegoria para explicar a diferença entre duas condições espirituais. A Jerusalém celestial representa a liberdade relacionada à promessa divina. Embora esse texto contribua para o tema da cidade celestial, seu contexto imediato é a argumentação de Paulo sobre a lei, a promessa e a identidade dos filhos da liberdade.
Hebreus 12.22-23 volta a mencionar a cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, juntamente com “os espíritos dos justos aperfeiçoados”. Na interpretação escatológica apresentada neste artigo, essa referência abrange os justos redimidos que alcançaram a condição de perfeição diante de Deus, incluindo os santos do Antigo Testamento.
É necessário, porém, reconhecer que Hebreus não apresenta uma lista completa de todos os habitantes da Nova Jerusalém nem explica detalhadamente a condição futura de cada grupo. A identificação dos santos do Antigo Testamento como participantes da cidade decorre da relação entre as promessas de Hebreus 11 e a visão celestial de Hebreus 12.
A CIDADE E A IDENTIDADE DE ISRAEL
Vale considerar também a observação de Jennings a respeito dos diferentes grupos de santos que aguardam a cidade celestial:
“Mas, já que todos os santos da antiguidade, sejam eles anteriores a qualquer distinção grupal, como Enoque; ou gentios, como Jó; ou judeus, como Abraão, podem ter seu lugar nessa cidade, ela não pode ser considerada caracteristicamente judia.”
O argumento de Jennings é que a esperança da cidade celestial não se restringe a Israel segundo a carne. A expectativa de uma pátria preparada por Deus é apresentada em relação a pessoas de diferentes épocas e origens, conforme o testemunho bíblico sobre os santos do passado.
Isso, entretanto, não significa que Israel esteja excluído da Nova Jerusalém. Em Apocalipse 21.12, João descreve a muralha da cidade com doze portas, nas quais estão escritos os nomes das doze tribos dos filhos de Israel. Em Apocalipse 21.14, os fundamentos da muralha trazem os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.
A presença desses nomes estabelece uma ligação significativa entre a cidade, Israel e os apóstolos do Cordeiro. Na interpretação que considera a cidade literal e reconhece a participação dos redimidos de diferentes épocas, esses elementos apontam para a unidade do propósito de Deus sem apagar as referências bíblicas específicas a Israel e à Igreja.
Contudo, a inscrição dos nomes das tribos nas portas não constitui, isoladamente, uma descrição completa de todos os habitantes da cidade. Ela é um elemento da visão que deve ser interpretado em conjunto com o restante de Apocalipse e com as demais passagens relacionadas à esperança futura.
QUEM HABITARÁ NA NOVA JERUSALÉM?
Com base nos textos examinados e na interpretação escatológica aqui apresentada, podemos considerar a participação de diferentes grupos na realidade celestial:
- Deus e o Cordeiro: a presença divina ocupa o centro da descrição da cidade, e os seus servos verão a face do Senhor (Ap 21.22-23; 22.3-5).
- A Igreja glorificada: a imagem da noiva, a esposa do Cordeiro, estabelece uma relação especial entre a Igreja e a Nova Jerusalém (Ap 21.9-10).
- Os santos do Antigo Testamento: a promessa da cidade preparada por Deus e a referência aos espíritos dos justos aperfeiçoados fundamentam sua participação na esperança celestial (Hb 11.10-16; 12.22-23).
- Os redimidos de Israel: os nomes das doze tribos nas portas da cidade demonstram a importância de Israel na descrição da Nova Jerusalém (Ap 21.12).
- Os santos anjos: Hebreus 12.22 menciona incontáveis hostes de anjos na assembleia celestial, embora a passagem não especifique todos os detalhes de sua relação com a cidade.
Essa síntese deve ser entendida como uma conclusão teológica construída a partir da relação entre diferentes passagens bíblicas, e não como uma lista literal de habitantes apresentada integralmente em um único versículo.
Na perspectiva adotada nesta série, a Nova Jerusalém estará associada à presença eterna de Deus e à comunhão dos redimidos. A Igreja ocupa uma posição especial na imagem da noiva, enquanto as referências aos patriarcas, aos justos aperfeiçoados e às tribos de Israel ampliam a compreensão da esperança celestial.
CONCLUSÃO
A Nova Jerusalém é apresentada em Apocalipse como a cidade santa que desce do céu, tendo a glória de Deus e o trono de Deus e do Cordeiro. A visão destaca a comunhão definitiva entre Deus e os seus servos, que o verão face a face e reinarão pelos séculos dos séculos.
Ao relacionarmos Apocalipse 21 e 22 com Hebreus 11 e 12, João 14 e outras passagens, encontramos fundamentos para compreender a cidade celestial como parte da esperança futura dos redimidos. A relação entre a cidade, a Igreja, os santos do Antigo Testamento e Israel deve ser examinada respeitando tanto as declarações expressas das Escrituras quanto as conclusões interpretativas que construímos a partir delas.
Nos próximos artigos, prosseguiremos com a análise dos meios de entrada na Nova Jerusalém e de sua relação com o Milênio e com o Estado Eterno. Esses assuntos nos ajudarão a aprofundar a compreensão do lugar da cidade na consumação do plano divino.
FONTE: Manual de Escatologia.
AUTOR: J. Dwight Pentecost.
EDITORA: Vida.