COMO A DESCENDÊNCIA DE ABRAÃO POSSUIRÁ A TERRA?
INTRODUÇÃO
Chegamos a uma etapa importante do nosso estudo sobre a Aliança Abraâmica, uma das alianças fundamentais relacionadas ao propósito de Deus para Israel e que possui importante dimensão escatológica.
Entre as promessas estabelecidas nessa aliança está a promessa da terra à descendência de Abraão. Neste artigo, examinaremos especificamente a maneira como essa promessa é compreendida dentro da interpretação pré-milenarista e por que se entende que sua plena realização ainda aguarda cumprimento futuro.
Walvoord destaca algumas características fundamentais da promessa da terra:
“A promessa da posse da terra pela descendência de Abraão é uma das características marcantes da aliança, e a maneira pela qual a promessa é feita aumenta ainda mais o seu significado. Conforme apresentada, a promessa sublinha que: 1) ela é o resultado da graça em seu princípio; 2) a terra é uma herança para a descendência; 3) a posse é concedida perpetuamente; 4) a posse deverá ser desfrutada perpetuamente; 5) a terra prometida incluirá um território específico, definido por fronteiras específicas.”
Essas características são importantes porque mostram que a promessa territorial não é apresentada simplesmente como uma concessão temporária de território. Ela está relacionada à herança, à descendência e a um território especificamente delimitado.
A PROMESSA DA TERRA E A EXPECTATIVA DE ISRAEL
A promessa da terra tornou-se uma parte importante da expectativa de Israel ao longo do Antigo Testamento e está presente na mensagem dos profetas.
Dentro da interpretação pré-milenarista, isso levanta uma questão fundamental: se Israel tivesse sido definitivamente rejeitado como nação, a interpretação das promessas territoriais e nacionais feitas no Antigo Testamento precisaria ser completamente redefinida.
Por isso, a discussão sobre o futuro de Israel está diretamente relacionada à interpretação da Aliança Abraâmica.
O argumento pré-milenarista é que a incredulidade de Israel não significa necessariamente que Deus tenha cancelado definitivamente as promessas feitas à nação.
É nesse contexto que Ryrie examina algumas passagens utilizadas para argumentar que Israel teria sido definitivamente deixado de lado.
O REINO SERÁ TIRADO DE ISRAEL?
Uma das passagens analisadas por Ryrie é Mateus 21.43:
“Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos.”
Ryrie observa que uma interpretação adequada dessa passagem precisa considerar três perguntas: o que será tirado, de quem será tirado e a quem será dado?
Segundo sua interpretação, o que será tirado é o reino de Deus. O reino, nesse contexto, está relacionado à esfera do governo de Deus e à resposta daqueles que recebem o Rei.
De quem o reino seria tirado?
Ryrie entende que o pronome “vos” se refere à geração de judeus que estava diante de Jesus e que O havia rejeitado.
A questão seguinte é: a quem o reino seria dado?
Ryrie entende que a expressão “um povo que lhe produza os respectivos frutos” não significa necessariamente que Israel tenha sido definitivamente substituído por outro povo. Em sua interpretação, a expressão encontra seu sentido pleno no futuro, quando Israel se voltar para o Senhor e participar do reino messiânico.
Assim, Mateus 21.43 não seria interpretado como uma declaração de que Deus cancelou definitivamente suas promessas a Israel.
A FUTURA SALVAÇÃO DE ISRAEL
A segunda passagem destacada por Ryrie encontra-se em Romanos 11.26-27:
“E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Libertador e ele apartará de Jacó as impiedades. Esta é a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados.”
Essa passagem possui importância fundamental para a interpretação do futuro de Israel.
Na leitura pré-milenarista apresentada por Ryrie, a expressão “todo o Israel” mantém referência a Israel como nação. Assim, Paulo estaria apontando para uma futura ação de Deus em favor de Israel.
Essa compreensão está relacionada ao argumento desenvolvido por Paulo em Romanos 11, no qual ele trata do endurecimento parcial de Israel e da entrada da plenitude dos gentios.
O texto também afirma que o Libertador virá de Sião e apartará de Jacó as impiedades, relacionando a futura restauração de Israel à ação salvadora de Deus.
Dentro da interpretação pré-milenarista, essa futura salvação de Israel demonstra que a situação atual da nação não representa o encerramento definitivo do propósito de Deus para ela.
ISRAEL E O FUTURO CUMPRIMENTO DA PROMESSA
Se Israel não foi definitivamente rejeitado, a promessa da terra também não precisa ser interpretada como uma promessa cancelada.
A interpretação pré-milenarista entende que existe uma relação entre a futura restauração de Israel e o cumprimento das promessas feitas à descendência de Abraão.
Isso não significa que Israel tenha desfrutado sempre da terra da maneira plena e permanente descrita nas promessas. A história bíblica registra períodos de posse, perda, exílio e restauração.
Por isso, a questão não é simplesmente saber se Israel já esteve na terra, mas se a forma como a promessa foi estabelecida encontra nela seu cumprimento definitivo.
É justamente nesse ponto que a interpretação pré-milenarista aguarda um cumprimento futuro.
A promessa envolve uma herança permanente, uma descendência específica e um território definido. Esses elementos são considerados conjuntamente na interpretação da Aliança Abraâmica.
CONCLUSÃO
A promessa da terra constitui uma das dimensões fundamentais da Aliança Abraâmica.
Dentro da interpretação pré-milenarista, essa promessa não deve ser reduzida às ocupações territoriais experimentadas por Israel ao longo de sua história. A linguagem da aliança aponta para uma herança relacionada à descendência de Abraão e para uma posse permanente da terra.
A discussão sobre o futuro de Israel é, portanto, fundamental para essa interpretação. Mateus 21.43 não é entendido como uma rejeição definitiva de Israel, enquanto Romanos 11.26-27 é compreendido como uma indicação de futura restauração e salvação da nação.
Dessa forma, a interpretação pré-milenarista entende que Israel ainda permanece relacionado às promessas da Aliança Abraâmica e que a promessa territorial possui uma dimensão de cumprimento futuro.
No próximo artigo, encerraremos o estudo da Aliança Abraâmica examinando uma questão fundamental: A Aliança Abraâmica já se cumpriu?
Fonte: Manual de Escatologia
Autor: J. D. Pentecost
Editora: Vida