A ALIANÇA ABRAÂMICA JÁ SE CUMPRIU?
INTRODUÇÃO
Chegamos ao encerramento do nosso estudo sobre a Aliança Abraâmica. Ao longo desta sequência, examinamos suas promessas, a descendência de Abraão, a relação da Igreja com a aliança e a promessa da terra.
Agora chegamos a uma questão fundamental: a Aliança Abraâmica já se cumpriu?
A resposta depende diretamente da maneira como se compreende a extensão das promessas feitas por Deus a Abraão e à sua descendência. Dentro da escatologia, existem diferentes interpretações sobre o cumprimento dessas promessas.
Neste artigo, examinaremos inicialmente a posição de Murray, que entende que as promessas relacionadas à terra já encontraram cumprimento histórico, e depois apresentaremos os argumentos utilizados pela interpretação pré-milenarista para defender um cumprimento ainda futuro.
A INTERPRETAÇÃO DE MURRAY: UM CUMPRIMENTO HISTÓRICO
Murray entende que Deus cumpriu a promessa feita a Abraão e à sua descendência quanto à posse da terra de Canaã.
Em seu argumento, ele destaca que Abraão recebeu uma porção de terra quando adquiriu o campo e a caverna de Macpela para sepultar Sara. Posteriormente, os patriarcas também foram sepultados na terra de Canaã.
Assim, para Murray, a promessa encontrou seu cumprimento histórico na relação dos patriarcas com a terra prometida e, posteriormente, na posse territorial alcançada pelos descendentes de Abraão.
Essa interpretação procura compreender a promessa a partir de seu desenvolvimento dentro da própria história de Israel.
A EXTENSÃO TERRITORIAL NO REINADO DE SALOMÃO
Um dos textos utilizados para sustentar essa interpretação é 1 Reis 4.21, que descreve o domínio de Salomão:
“E dominava Salomão sobre todos os reinos desde o rio até à terra dos filisteus e até ao termo do Egito; e traziam presentes, e serviram a Salomão todos os dias da sua vida.”
O versículo seguinte também apresenta a extensão do domínio de Salomão:
“E dominava sobre toda a região daquém do rio, desde Tifsa até Gaza, sobre todos os reis daquém do rio; e tinha paz de todos os lados em redor.”
Esses textos demonstram que Israel alcançou, em determinado período de sua história, uma extensão territorial significativa.
Para a interpretação de Murray, esse domínio histórico constitui evidência de que a promessa territorial feita a Abraão alcançou seu cumprimento.
Entretanto, permanece uma questão importante: esse domínio histórico corresponde ao cumprimento pleno e definitivo da promessa da aliança?
A QUESTÃO DA PERPETUIDADE DA PROMESSA
Grande parte da discussão está relacionada à maneira como se entende a linguagem de permanência presente na Aliança Abraâmica.
O argumento de um cumprimento histórico exige uma determinada interpretação dessa linguagem. Murray questiona a ideia de que a posse da terra pudesse significar uma permanência absoluta e interminável, uma vez que os indivíduos que receberam a promessa eram mortais.
Nessa perspectiva, a permanência da promessa não exigiria que cada indivíduo permanecesse fisicamente na terra para sempre. O fato de Abraão ter adquirido uma propriedade para sepultamento e de seus restos permanecerem em Canaã seria, para Murray, significativo para a compreensão do cumprimento da promessa.
Portanto, seu argumento não depende apenas da extensão territorial alcançada por Israel, mas também de uma determinada compreensão do significado da permanência da promessa.
ABRAÃO RECEBEU A TERRA COMO HERANÇA?
Entretanto, existe uma passagem importante que é utilizada pela interpretação pré-milenarista para questionar a ideia de que Abraão tenha recebido a terra como herança plena.
Em seu discurso registrado em Atos 7, Estêvão afirma:
“E não lhe deu nela herança, nem ainda o espaço de um pé; mas prometeu que lha daria em possessão, e à sua descendência depois dele, não tendo ele ainda filho.”
Atos 7.5
Esse texto apresenta uma dificuldade importante para a interpretação de que a promessa territorial já teria sido plenamente cumprida na experiência pessoal de Abraão.
Estêvão afirma que Deus não deu a Abraão herança na terra, nem mesmo o espaço de um pé, embora tivesse prometido dar a terra a ele e à sua descendência.
É verdade que Abraão adquiriu uma propriedade para sepultamento. Porém, Atos 7.5 distingue entre possuir uma propriedade para sepultura e receber a terra como a herança prometida por Deus.
Essa distinção é fundamental para o argumento pré-milenarista.
OS PATRIARCAS MORRERAM SEM RECEBER AS PROMESSAS
Outro texto importante encontra-se em Hebreus 11.
“Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas, mas, vendo-as de longe, e crendo nelas, e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra.”
Hebreus 11.13
O autor de Hebreus afirma que os patriarcas morreram sem receber as promessas em sua plenitude.
O contexto não trata exclusivamente da promessa territorial, pois apresenta um conjunto mais amplo de expectativas relacionadas à fé dos patriarcas. Entretanto, o texto contribui para a discussão porque demonstra que a experiência histórica dos patriarcas não deve ser automaticamente identificada com o cumprimento pleno de todas as promessas recebidas.
Os patriarcas viveram como peregrinos e estrangeiros, aguardando aquilo que Deus havia prometido.
Assim, a questão permanece: se morreram sem receber as promessas, em que sentido podemos afirmar que todas elas já foram plenamente cumpridas?
CUMPRIMENTO HISTÓRICO E CUMPRIMENTO PLENO
É importante estabelecer aqui uma distinção.
A Bíblia registra momentos em que Israel recebeu e ocupou a terra prometida. Portanto, não seria correto afirmar que a promessa territorial nunca teve qualquer cumprimento histórico.
O ponto da discussão é outro: o cumprimento histórico foi parcial ou definitivo?
Dentro da interpretação pré-milenarista, houve cumprimento histórico real, mas esse cumprimento não esgotou a promessa estabelecida na aliança.
A extensão territorial alcançada nos dias de Davi e Salomão, por exemplo, demonstra que determinadas dimensões das promessas foram experimentadas na história de Israel. Entretanto, isso não significa necessariamente que a promessa tenha alcançado sua forma definitiva e permanente.
Essa distinção permite reconhecer os acontecimentos históricos sem concluir que eles tenham encerrado todas as dimensões da promessa.
A INTERPRETAÇÃO PRÉ-MILENARISTA
Dentro da interpretação pré-milenarista, a Aliança Abraâmica é entendida como uma aliança que possui caráter incondicional e promessas que ainda aguardam seu cumprimento pleno.
Essa interpretação considera que as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência e que não devem ser reduzidas exclusivamente às experiências territoriais já registradas na história de Israel.
O argumento também está relacionado à continuidade de Israel no propósito de Deus. Se as promessas nacionais e territoriais feitas à descendência física de Abraão ainda possuem significado próprio, então a preservação de Israel como povo também assume importância dentro dessa interpretação.
É nesse contexto que o pré-milenarismo relaciona a Aliança Abraâmica com textos que apontam para um futuro de Israel.
Romanos 11.26-27, por exemplo, afirma:
“E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Libertador e ele apartará de Jacó as impiedades. E esta será a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados.”
Na interpretação pré-milenarista, essa passagem aponta para uma futura ação de Deus em favor de Israel e se harmoniza com a compreensão de que as promessas feitas aos patriarcas ainda possuem uma dimensão futura.
A POSIÇÃO DE WALVOORD
Walvoord resume a posição pré-milenarista destacando a necessidade de preservar a distinção entre as promessas feitas a Abraão, à descendência física e aos descendentes espirituais.
Em sua interpretação, a Aliança Abraâmica possui caráter incondicional, e os cumprimentos históricos já experimentados por Israel constituem antecipações que não eliminam seu cumprimento futuro.
Walvoord entende que a restauração de Israel ocupa lugar fundamental nesse processo e que a continuidade de Israel como povo está diretamente relacionada às promessas feitas na aliança.
Em sua conclusão, Walvoord considera que a interpretação pré-milenarista é a que melhor preserva a relação entre a promessa feita a Abraão, a descendência física, a terra e o futuro de Israel.
Essa é, portanto, a conclusão teológica defendida por Walvoord. Ela deve ser distinguida daquilo que os textos bíblicos afirmam diretamente e da maneira como o sistema pré-milenarista relaciona esses textos entre si.
A ALIANÇA ABRAÂMICA JÁ SE CUMPRIU?
Depois de examinarmos os principais argumentos, podemos retornar à pergunta que dá título a este artigo.
Se entendermos a Aliança Abraâmica apenas a partir dos cumprimentos históricos registrados no Antigo Testamento, será possível afirmar que determinadas promessas foram realizadas na história de Israel.
Israel recebeu a terra, estabeleceu-se nela e, em determinados períodos, alcançou uma extensão territorial significativa.
Entretanto, se considerarmos a totalidade das promessas da aliança, a questão se torna mais complexa.
Atos 7.5 afirma que Abraão não recebeu a terra como herança. Hebreus 11.13 afirma que os patriarcas morreram sem receber as promessas em sua plenitude. E Romanos 11 aponta, na interpretação pré-milenarista, para um futuro de restauração de Israel.
Por isso, dentro dessa interpretação, a Aliança Abraâmica não pode ser considerada plenamente cumprida.
Houve cumprimento histórico de determinadas dimensões da promessa, mas o cumprimento definitivo, especialmente no que diz respeito à herança permanente da terra e ao futuro de Israel, ainda é aguardado.
CONCLUSÃO DA SEQUÊNCIA SOBRE A ALIANÇA ABRAÂMICA
Ao longo desta sequência, examinamos diferentes aspectos da Aliança Abraâmica e sua importância para a escatologia interpretativa.
Observamos as promessas feitas a Abraão, a questão da descendência, as diferentes formas pelas quais a expressão “descendência de Abraão” é compreendida, a relação da Igreja com a aliança e a promessa da terra.
Também vimos que a discussão sobre o cumprimento da aliança depende diretamente da interpretação que se faz de sua extensão e de sua linguagem de permanência.
A interpretação que entende a aliança como já cumprida destaca os acontecimentos históricos relacionados à posse da terra por Israel e interpreta a permanência da promessa de acordo com essa realização histórica.
A interpretação pré-milenarista, por outro lado, reconhece esses cumprimentos históricos, mas entende que eles não esgotaram as promessas feitas por Deus a Abraão e à sua descendência.
Assim, dentro dessa perspectiva, a Aliança Abraâmica possui ainda uma dimensão futura, relacionada especialmente à descendência física de Abraão, à terra e ao futuro de Israel.
Com isso, encerramos nosso estudo da Aliança Abraâmica dentro desta sequência de Escatologia Interpretativa.
No próximo estudo, avançaremos para a Aliança Palestínica, também conhecida como Aliança de Canaã, examinando suas características e sua importância para a compreensão das promessas futuras relacionadas a Israel.
Fonte: Manual de Escatologia
Autor: J. D. Pentecost
Editora: Vida