O Mesotribulacionismo e a Doutrina da Igreja
Introdução
A doutrina da Igreja (Eclesiologia) exerce papel fundamental na construção de qualquer sistema escatológico. No mesotribulacionismo, a compreensão da natureza, do propósito e da posição da Igreja no plano redentor influencia diretamente sua interpretação da Grande Tribulação, da iminência e da relação entre Israel e a Igreja. Este artigo analisa os pressupostos eclesiológicos do mesotribulacionismo, destacando suas implicações bíblicas, teológicas e escatológicas.
Os Pressupostos do Mesotribulacionismo da Eclesiologia
O mesotribulacionismo parte do pressuposto de que a Igreja possui uma relação direta com os eventos escatológicos da 70ª semana de Daniel. Essa compreensão afeta sua leitura da distinção entre Israel e Igreja e da função da Igreja na presente era.
A Igreja como Mistério no Antigo Testamento
As Escrituras do Antigo Testamento não apresentam a Igreja de forma explícita. O conceito da Igreja como Corpo de Cristo, formado por judeus e gentios em igualdade espiritual, não é claramente revelado nos escritos veterotestamentários. Esse silêncio bíblico indica que a Igreja estava oculta no plano revelacional de Deus.
A Igreja como Mistério Revelado no Novo Testamento
No Novo Testamento, especialmente nas epístolas paulinas, a Igreja é revelada como um mistério anteriormente oculto e agora manifesto. Textos como Efésios 3:3–6 e Colossenses 1:26–27 afirmam que a Igreja pertence a uma nova etapa do plano redentor de Deus, distinta das economias anteriores.
A Negação da Igreja como Mistério
A NEGAÇÃO DA IGREJA COMO MISTÉRIO:
O mesotribulacionismo nega essencialmente o conceito da Igreja como mistério.
A presente Era é um mistério, bem como o plano para a Igreja na Era Presente. Tal plano precisa ser levado a termo antes que Deus possa e chegue a lidar com Israel para completar o seu plano de alianças.
Um pensamento mesotribulacionista sobre esse aspecto diz o seguinte:
“Pensar que as eras colidem abruptamente uma com a outra é fatal. Transportar tal conceito para a série de acontecimentos que constitui o final dos tempos é igualmente fatal. Na verdade, elas se sobrepõem, o que pode levar, em última análise, a uma fusão.”
Essa visão conduz à ideia de que a Igreja participa de parte da Tribulação, pois não haveria uma separação clara entre a era da Igreja e o período em que Deus retoma Seu trato específico com Israel.
O Início da Igreja
Biblicamente, a Igreja tem seu início no dia de Pentecostes (Atos 2), com o batismo do Espírito Santo formando um novo corpo espiritual. O mesotribulacionismo reconhece esse início histórico, mas relativiza sua separação escatológica em relação a Israel.
A Relação da Igreja e Israel
No sistema mesotribulacionista, a distinção entre Israel e Igreja tende a ser enfraquecida. Embora reconheça diferenças históricas, o sistema frequentemente propõe uma sobreposição funcional entre ambos no período da Tribulação.
A Relação da Igreja com o Israel de Deus
Alguns mesotribulacionistas interpretam a expressão “Israel de Deus” (Gálatas 6:16) como referência à Igreja, reforçando uma compreensão mais unificada do povo de Deus ao longo da história redentora.
A Relação da Igreja com as Alianças Bíblicas
O mesotribulacionismo geralmente sustenta que a Igreja participa espiritualmente das alianças feitas com Israel, especialmente da Nova Aliança, ainda que reconheça aspectos futuros específicos para a nação israelita.
A Relação da Igreja na Presente Era
A presente era é vista como uma continuidade do plano de Deus, não como um parêntese distinto. Essa abordagem reduz a noção de uma interrupção clara entre a era da Igreja e o cumprimento escatológico das promessas a Israel.
A Relação da Igreja com as Profecias
No mesotribulacionismo, a Igreja está incluída em várias profecias relacionadas à Tribulação, especialmente nos juízos iniciais. Essa inclusão decorre da compreensão de que a Igreja ainda está presente durante a primeira metade da 70ª semana de Daniel.
Conclusão
A eclesiologia mesotribulacionista exerce influência decisiva sobre sua escatologia. Ao minimizar a Igreja como mistério distinto e ao propor uma sobreposição entre as eras, o sistema acaba integrando a Igreja em eventos que, segundo uma leitura dispensacional clássica, pertencem ao trato específico de Deus com Israel. Essa abordagem levanta desafios bíblicos, hermenêuticos e teológicos que continuam sendo amplamente debatidos no campo escatológico.
Fontes
- Bíblia Sagrada
- Efésios 3:1–11
- Colossenses 1:24–27
- Atos 2
- Gálatas 6:16
- Ryrie, Charles C. Dispensationalism
- Walvoord, John F. The Church in Prophecy
Este estudo faz parte da série de Escatologia Sistemática.
A Escatologia Sistemática busca organizar de forma teológica e bíblica os principais temas relacionados às últimas coisas, analisando suas bases nas Escrituras e sua relação com as doutrinas centrais da fé cristã.
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