A Relação do Mesotribulacionismo com o Pré-Tribulacionismo
Introdução
O mesotribulacionismo e o pré-tribulacionismo compartilham diversos pontos em comum dentro do campo do pré-milenismo futurista. Ambas as posições afirmam uma leitura literal das profecias, reconhecem uma futura Grande Tribulação e aguardam o retorno corporal de Cristo. Contudo, apesar dessas afinidades iniciais, as duas visões divergem significativamente quanto ao momento do arrebatamento da Igreja e à relação desta com o período tribulacional.
Este artigo analisa a relação entre o mesotribulacionismo e o pré-tribulacionismo, destacando seus pontos de convergência, suas divergências centrais e as tensões teológicas e escatológicas que surgem entre ambas.
Pontos de Convergência entre o Mesotribulacionismo e o Pré-Tribulacionismo
Ambas as posições concordam em aspectos fundamentais da escatologia bíblica:
- Pré-milenismo literal: ambas defendem um Reino Milenar futuro e literal, conforme Apocalipse 20.
- Tribulação futura: reconhecem a Grande Tribulação como um evento histórico e futuro, associado à 70ª semana de Daniel.
- Rejeição do amilenismo e do pós-milenismo: nenhuma das duas espiritualiza completamente o Reino ou os juízos finais.
- Retorno corporal de Cristo: ambas aguardam a volta visível e gloriosa de Cristo.
Esses pontos comuns explicam por que o mesotribulacionismo surgiu historicamente dentro do ambiente dispensacional.
A Divergência Central: o Momento do Arrebatamento
A principal diferença entre as duas posições está no momento do arrebatamento da Igreja:
- Pré-tribulacionismo: o arrebatamento ocorre antes do início da 70ª semana de Daniel, preservando a Igreja da totalidade da ira divina.
- Mesotribulacionismo: o arrebatamento ocorre no meio da 70ª semana, geralmente associado à sétima trombeta ou a um ponto intermediário da Tribulação.
Essa diferença gera implicações profundas em praticamente todas as áreas da escatologia.
A Relação da Igreja com a Tribulação
O pré-tribulacionismo sustenta que a Tribulação tem um propósito primariamente judaico e judicial, não eclesiológico. Já o mesotribulacionismo, ao manter a Igreja na primeira metade da Tribulação, atribui à Igreja um papel ativo dentro de um período marcado por juízo escatológico.
Essa divergência levanta questões importantes sobre a natureza da Tribulação, o papel da Igreja na economia escatológica e a distinção bíblica entre Israel e Igreja.
A Doutrina da Iminência
O pré-tribulacionismo afirma uma iminência plena, isto é, nenhum evento profético precisa ocorrer antes do arrebatamento da Igreja.
O mesotribulacionismo, por sua vez, condiciona o arrebatamento a eventos prévios, como a manifestação do Anticristo, a abominação da desolação ou o desenrolar de parte dos juízos, criando tensão com textos que enfatizam vigilância constante e expectativa imediata.
A Interpretação das Trombetas
Outro ponto decisivo está na interpretação da “última trombeta”:
- O mesotribulacionismo tende a identificar a última trombeta de 1 Coríntios 15.52 com a sétima trombeta de Apocalipse 11.
- O pré-tribulacionismo entende essas trombetas como distintas em natureza, contexto e propósito.
Essa diferença hermenêutica é central para a sustentação do arrebatamento no meio da Tribulação.
A Coerência Dispensacional
Embora o mesotribulacionismo se apresente como dispensacional, ele enfrenta dificuldades internas ao inserir a Igreja dentro de um período claramente ligado à restauração de Israel, enfraquecendo o conceito da Igreja como mistério e misturando elementos da presente era com a economia da Tribulação.
O pré-tribulacionismo preserva de forma mais consistente a distinção entre dispensações, a singularidade da Igreja e o propósito específico da 70ª semana de Daniel.
Avaliação Teológica da Relação entre as Duas Visões
O mesotribulacionismo compartilha a base escatológica do pré-tribulacionismo, mas altera um ponto estrutural que afeta todo o sistema. Por isso, é frequentemente visto como uma posição intermediária que, ao tentar evitar os extremos, acaba herdando dificuldades de ambos.
Conclusão
A relação entre o mesotribulacionismo e o pré-tribulacionismo é marcada por proximidade teológica e divergências significativas. Embora compartilhem fundamentos importantes, o momento do arrebatamento gera distinções hermenêuticas, eclesiológicas e escatológicas profundas.
O pré-tribulacionismo demonstra maior coerência interna ao preservar a doutrina da iminência, a distinção entre Israel e Igreja e o propósito específico da Tribulação. O mesotribulacionismo, apesar de suas afinidades, enfrenta dificuldades ao manter a Igreja dentro de um período destinado primordialmente ao juízo e à restauração de Israel.
Fontes
- Charles C. Ryrie
- John F. Walvoord
- J. Dwight Pentecost
- Stanley D. Toussaint
- Renald Showers
- Norman B. Harrison
- Gleason L. Archer